8 de agosto de 2009

"Minha pátria está rumando para uma ditadura militar", diz filósofo iraniano

Der Spiegel
Entrevista conduzida por Erich Follath e Gabor Steingart

Em uma entrevista a Der Spiegel, o teólogo e filósofo iraniano Mohsen Kadivar fala sobre a rota de Teerã rumo a uma ditadura militar, de como os líderes religiosos do país abusam do islamismo e das oportunidades para uma reforma

Mohsen Kadivar é considerado um dos principais críticos religiosos do regime iraniano. Ele passou 18 meses na infame prisão Ervin devido às suas ideias. Em reconhecimento aos seus esforços para reconciliar o islamismo com a democracia, a revista "Time" afirmou que ele é um dos mais importantes inovadores do mundo. Atualmente, o professor, que tem o título religioso de aiatolá, ou "sinal de Deus", está lecionando por um semestre na Universidade Duke, na Carolina do Norte. Kadivar é casado e tem quatro filhos

Spiegel: Aiatolá Kadivar, nós estamos nos reunindo com você aqui, na Universidade Duke, no Estado norte-americano da Carolina do Norte, a 12 mil quilômetros da sua casa. Não há uma necessidade mais urgente da sua presença no Irã neste momento?
Kadivar: Acredite, nestes momentos dramáticos, eu preferiria estar no meu país. Nas próximas duas semanas, o futuro do Irã será decidido. Quase todos os meus amigos, 95% deles, estão atualmente na prisão. E eu mal consigo fazer contato com a minha família, os telefones estão quase mudos.

Spiegel: Dizem que você foi o coautor das mais recentes declarações do líder oposicionista Mir Hossein Mousavi.
Kadivar: Isso não é verdade. Embora eu tenha apreciado as declarações dele, elas não foram redigidas por mim. Publiquei as minhas declarações separadamente, embora eu apoie Mousavi fortemente. Nós encontramos formas de nos comunicarmos. Pela Internet ou através de terceiros. Estou em contato constante com o meu país. Todos os dias recebo cerca de cem mensagens.

Spiegel: Neste momento Teerã parece estar tranquila, pelo menos em comparação com os protestos maciços ocorridos na semana retrasada. Será que estamos presenciando o início do fim da resistência - ou o fim do regime iraniano?
Kadivar: Esta forma iraniana de teocracia fracassou. Os direitos dos povos iranianos foram esmagados e a minha pátria está rumando para uma ditadura militar. O presidente Mahmoud Ahmadinejad comporta-se como um taleban iraniano. O líder supremo, Ali Khamenei, amarrou o seu destino ao de Ahmadinejad, o que foi um grande erro moral, mas também político.

Spiegel: Qual foi o seu conselho para o líder oposicionista Mousavi nos últimos dias? Ele é realmente o líder inconteste do movimento?
Kadivar: Sim, ele é o líder. Atualmente todos os reformistas apoiam Mousavi, o meu amigo da época em que estudávamos na Universidade Tarbiat Modares, em Teerã. Ele era professor de Ciência Política e eu, de Filosofia e Teologia. Acredito que ele deve insistir na realização de novas eleições e continuar pedindo que sejam feitas manifestações não violentas...

Spiegel: ... manifestações que seriam violentamente reprimidas pelas forças de segurança do regime, a Basij e a Pasdaran.
Kadivar: No longo prazo, um regime dificilmente consegue opor-se a milhões de manifestantes pacíficos - a menos que opte por um massacre e, ao fazer tal coisa, perca a sua legitimidade. Devemos chamar atenção sistematicamente para os direitos concedidos pela Constituição iraniana. No artigo 27, está claramente especificado que todo cidadão tem o direito de protestar. O nosso protesto é não violento, além de legal e "verde" - embora seja islâmico.

Spiegel: Isso é o que você diz.
Kadivar: O artigo 56 da nossa Constituição inclui o direito a Deus que é dado a todos os cidadãos iranianos. A seguir os cidadãos elegem o seu líder, o presidente e o parlamento. A Constituição é muito clara quanto a isso: o líder precisa ser eleito, e não pode ser selecionado por aqueles que alegam conhecer a vontade de Deus.

Spiegel: A doutrina estatal da Welayat-e Faqih (Guarda dos Juristas Islâmicos) e o seu maior representante, Ali Khamenei, enxerga isso sob uma ótica bem diferente. Eles alegam que o movimento de protesto é dirigido contra a lei e a religião.
Kadivar: As pessoas gritam "Allahu Akbar" ["Deus é grande"] dos telhados. Elas portam cartazes com a pergunta, "Para onde foi o meu voto?". Os manifestantes não desejam rebelar-se contra tudo, mas eles querem justiça e eleições justas. Quem recusar estas demandas corre o risco de enfrentar uma guerra civil.

Kadivar: Eu admito que alguns jovens têm uma orientação ocidental. Mas não se deve dar uma importância excessiva a isso. A maioria dos meus compatriotas não deseja uma separação completa entre Estado e religião. E eu também não desejo tal coisa. O Irã é um país de tradições e valores islâmicos. Mais de 90% dos nossos cidadãos são muçulmanos.

Spiegel: A que valores você está se referindo especificamente?
Kadivar: Acima de tudo está a justiça e a realização do desejo do povo. Sob o governo de Ali, o nosso primeiro imame xiita, não havia prisioneiros políticos, as manifestações não violentas eram permitidas e os comentários críticos chegavam a ser incentivados. Não se deve trair esses valores.

Eu defendo um Estado verdadeiramente islâmico e democrático, um Estado que respeite a dignidade humana e não recuse os direitos das mulheres, um Estado no qual os indivíduos possam eleger livremente os seus líderes religiosos e seculares
Mohsen Kadivar
Spiegel: E Khamenei e Ahmadinejad os traíram?
Kadivar: Sim. Eu defendo um Estado verdadeiramente islâmico e democrático, um Estado que respeite a dignidade humana e não recuse os direitos das mulheres, um Estado no qual os indivíduos possam eleger livremente os seus líderes religiosos e seculares.

Spiegel: Mas agora você está falando em uma revolução - sobre um Irã completamente novo e diferente.
Kadivar: Estou falando de um país no qual os líderes religiosos não tenham o direito de determinar como o país é liderado, contrariando o desejo da maioria da comunidade, sob a alegação de que agem segundo o desejo de Deus. Tal direito não existe, nem na tradição xiita nem segundo outros imperativos. Não acredito em quaisquer direitos divinos para os clérigos ou crentes.

Spiegel: Em 1978, o aiatolá Khomeini afirmou em uma entrevista a "Der Spiegel": "A nossa futura sociedade será uma sociedade livre, e todos os elementos de opressão, crueldade e força serão destruídos".
Kadivar: O aiatolá Khomeini, o líder revolucionário, foi um personagem carismático. No início do seu governo ele contava com a aprovação de 95% dos iranianos, e, no final, 75% dos iranianos ainda o apoiavam. Khamenei não é tão carismático e ele está atualmente em meio a um processo de destruição do vínculo de justiça entre os líderes religiosos e o povo. Quando Khamenei, juntamente com Ahmadinejad, fala que países estrangeiros estão por trás dos protestos no Irã, ele me lembra bastante o rei (o xá). Este usava os mesmos argumentos e não era capaz de reconhecer que estava testemunhando um movimento de protesto nacional e democrático por parte do seu próprio povo. O xá quis até o fim manter o seu regime. Atualmente, Khamenei não pensa de forma diferente.

Spiegel: Mas enquanto o xá foi expulso do poder pela revolução, Khamenei e Ahmadinejad parecem estar firmemente estabelecidos em seus postos. Muitos cargos importantes estão preenchidos com gente deles.
Kadivar: A impressão é de fato essa. Mas o Irã não é mais aquele país que era antes dos protestos eleitorais. Posso até imaginar Hashemi Rafsanjani, como líder da Assembleia dos Especialistas, convidando de fato o líder religioso a comparecer à assembleia para uma conversa franca. Teoricamente, ele poderia até mesmo retirar Khamenei do seu posto. E Ahmadinejad também cairia.

"O regime iraniano deu um golpe de Estado", diz especialista em islamismo

"A fraude foi importante porque os resultados são aberrantes. Que Karrubi, um personagem chave da revolução, tenha recebido tão poucos votos inclusive em sua região natal é aberrante, como também o é que Moussavi tenha obtido a metade de votos que Ahmadinejad. Quiseram uma eleição triunfante no primeiro turno, e isso é um grave erro"



Spiegel: Mas para que isso ocorra, a maioria dos grande-aiatolás teriam que se opor aos dois.
Kadivar: Entre os grande-aiatolás de Qum, cresce o ressentimento em relação à arrogância de Ahmadinejad. Até agora, somente um dos 12 grande-aiatolás o cumprimentou pela vitória. Vários deles, incluindo o muito reverenciado professor aiatolá Hossein Ali Montazeri, que é altamente venerado em todo o país, manifestou-se duramente contra a fraude eleitoral.

Spiegel: Outros países podem fazer algo para ajudar a oposição?
Kadivar: Não. Esta é uma batalha que o povo iraniano precisa vencer por conta própria. Creio que, até o momento, o presidente Obama agiu de forma bastante prudente e não deu munição àqueles que procuram justificativas para ataques. A insistência de Ahmadinejad de que Washington alimentou a manifestação não teve efeito.

Spiegel: Obama comparou Ahmadinejad e Mousavi e comentou que a diferença entre os dois candidatos é pequena. O que ele falou está correto?
Kadivar: Sim, está correto. Mas, ao mesmo tempo, não está. As diferenças em relação à questão nuclear e à avaliação da política israelense são de fato pequenas. Quanto ao direito ao enriquecimento de urânio, você não encontrará nenhum político iraniano que pense de forma diferente. Mas, quanto à questão da democracia, as diferenças são formidáveis. Ahmadinejad adota uma posição agressiva, enquanto Mousavi enfatiza a obediência às leis e à Constituição. Eu acredito que a questão da democratização seja atualmente o principal problema. Tudo o mais, incluindo a questão nuclear, é secundário.

Spiegel: Os políticos ocidentais veem isso de forma bem diferente.
Kadivar: Quem quer que, neste momento, coloque a questão nuclear como prioridade nas discussões, não encontrará quem lhe dê ouvidos no Irã. O sangue está correndo nas ruas e você não para de me perguntar a respeito da energia nuclear.

Spiegel: Algumas pessoas no Ocidente temem que a situação poderia se tornar muito pior - e eles querem dizer para o mundo - se o Irã obtivesse armas nucleares.
Kadivar: Nós estamos especialmente preocupados com Israel. Aquele país entregou a energia nuclear às suas forças armadas. Todo muçulmano - bem, todo mundo - tem medo de Israel. O arsenal nuclear de Israel deveria ser colocado sob o controle das Nações Unidas e do Tratado de Não Proliferação.

Spiegel: Será que eu entendi bem o que você disse? Não haverá mudança na questão nuclear, não importa quem vença a luta pelo poder em Teerã?
Kadivar: Todo governo iraniano alegará que tem o direito ao uso pacífico da energia nuclear...

Spiegel: Mas não é esta a questão. Estamos falando da bomba nuclear.
Kadivar: Os Estados Unidos têm a bomba. Israel também. O que se diz sobre o meu país é apenas uma potencialidade, e não a realidade. Se a bomba nuclear é maligna, ela é maligna em qualquer lugar, e não apenas naqueles países que se opõem à política dos Estados Unidos. Trata-se de uma política de dois pesos e duas medidas.

Spiegel: O que aconteceria se Israel ou os Estados Unidos atacasse usinas nucleares no Irã?
Kadivar: Isso se constituiria em um desprezo por todos os valores morais. Os iranianos resistiriam, e fariam isso juntos, independentemente da linha política e religiosa.

Spiegel: Como será o Irã daqui a cinco anos?
Kadivar: Eu espero que haverá um Irã democrático. O meu país tem o potencial intrínseco para tornar-se uma sociedade democrática exemplar.

Spiegel: E como você vê o seu papel nesse processo?
Kadivar: Eu retornarei ao Irã, mas não tão cedo. Se retornasse a Teerã agora, eu também seria preso. A situação lá está terrível. O meu amigo, o doutor Saeed Hajarian, precisa urgentemente de remédios e de tratamento de saúde - ele deveria estar no hospital, e não na cadeia. Ouvi dizer que meus amigos Mostafa Tajzadeh e Abdallah Ramezanzadeh foram torturados. Ramezanzadeh foi o porta-voz do presidente Mohammad Khatami e Tajzadeh o seu vice-ministro do Interior.

Spiegel: Você passou 18 meses na infame prisão Evin, em Teerã.
Kadivar: Eu retornarei ao Irã, e estou também preparado para voltar à prisão, mas somente após os procedimentos jurídicos legais.

Spiegel: Você assumiria um cargo político em um Irã democrático?
Kadivar: Como acadêmico, escritor e professor, tenho um papel importante a cumprir. E nós temos excelentes líderes políticos no Irã. Por exemplo, Mir Hossein Mousavi, que eu apoio.

Fonte: Uol

2 comentários:

Ana Lúcia Porto disse...

Países do Oriente Médio são famosos pelos seus conflitos, que geraram os terroristas e pelos seus fanatismos religiosos.
Pelo que sei, o acordo de paz nessa região, está nas mãos da Palestina que, se antes era constituída pela maioria árabe, hoje é por judeus, que os expulsaram de lá, sob a força do movimento sionista. Pelo fato dos judeus terem sido perseguidos durante séculos, não possuíam um Estado próprio, então, quiseram refundar na Palestina um estado judeu. Tratados internacionais propuseram a divisão da Palestina entre os judeus e os árabes, sendo que estes já estavam nela há séculos, não aceitaram esse acordo. Ao final de tanta discórdia, os árabes terminaram por ficar sem território e os judeus conseguiram o Estado de Israel. Hoje em dia, o domínio dos judeus nos países do Oriente Médio é soberano frente aos árabes.
Por sua vez, a Palestina se encontra dividida em três partes: uma parte integra o Estado de Israel; duas outras (a Faixa de Gaza e a Cisjordânia), de maioria árabo-palestina, contudo, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, foram ocupadas militarmente por Israel, após a Guerra dos Seis Dias, impedindo que os árabes palestinos integrassem um estado palestiniano-árabe, conforme acordo com a lei internacional, com a ONU e o Reino Unido, que era potência colonial da zona. Ademais, atualmente, a Palestina é governada pelo primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do Hamas, e pelo presidente Mahmoud Abbas, do Fatah, tendo havido confrontos armados entre os dois grupos em Gaza.

Assim, ficam os árabes e os judeus brigando por territórios, se subdividindo em grupos, submetidos a governantes sem que todos possam votar, por restrições, criando de ambos os lados os radicais no comando, além de ficarem perdidos quanto a eleger e seguir um líder religioso, onde religiões como a Islâmica, o Cristianismo e o Judaísmo, são as três maiores religiões monoteístas do mundo, predominantes no Oriente Médio.
Desse modo, quando um estudioso filósofo expressa as suas idéias políticas e religiosas, ou é preso ou é obrigado a deixar o país de origem ou é torturado.
Ou seja, o Oriente Médio se consome em guerras desnecessárias onde países americanos e europeus, preferem alegar que ajudam na consciliação, enquanto na verdade, atiçam as suas revoltas e com isso, ganham forças políticas, prestigios e status, sem que deixem esmorecer a ambição pelas fabricações de armamentos nucleares e explorações na região, rica em petróleo e urânio.
Bem na utopia, antes o Oriente Médio pudesse virar uma ditadura como Cuba, sofreria menos e teria uma certeza de governo definido.
Beijos,
Ana Lúcia.

Roberson Marcomini disse...

Olá Ana muito boa a tua reflexão, concordo com a tua visão e, reforço que todos tem o direito de existir e acreditar que a terra é para todos, é terrivel ver dois povos, dois "irmãos" terem um comportamento como este. O fantatismo o terrorismo não prova a força de um povo, prova a incompetência de não ter a coragem de dialogar por uma vida melhor ao lado do outro.

Abraço