Sábado, 18 de Julho de 2009

História: Humanidade vive um "apocalipse suspenso"- Eduardo Lourenço

17 de Julho de 2009, 11:26
Coimbra, 17 Jul (Lusa) - O filósofo Eduardo Lourenço alertou, em Coimbra, que a humanidade vive "um apocalipse suspenso" desde o final da Segunda Guerra Mundial, aludindo às ameaças latentes de conflitos à escala planetária com recurso a armas de destruição maciça.
O ensaísta português, que reside a maior parte do tempo em Paris, participou quinta-feira à noite numa conferência promovida pela Fundação Inatel, intitulada "Novas respostas para a cultura", na Casa Municipal da Cultura.
Salientando que o mundo viveu "meio século entre o equilibrio do terror", Eduardo Lourenço referiu que desde o final da Segunda Guerra Mundial se vive, "sabendo ou não sabendo, com mais consciência disso ou não, uma espécie apocalipse suspenso. Nada está ainda decidido".

Colaborador: Rodney Eloy

Fonte:Noticias.Sapo

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Michael Jackson foi mais uma 'vítima do sistema', diz Leonardo Boff



O filósofo e teólogo Leonardo Boff esteve ontem, a noite na Câmara Municipal de Campo Grande para participar do projeto Diálogos Contemporâneos, realizado pela Prefeitura Municipal de Campo Grande, através da Fundação Municipal de Cultura (Fundac). Boff discutiu o tema “O mundo moderno e as propostas de realização da felicidade individual e coletiva".

A amplitude do tema somado aos conhecimentos de um dos mais famosos intelectuais brasileiros da atualidade, fez com que o convidado discorresse sobre problemas ambientais, o indivíduo e o coletivo, políticas internacionais entre outros. O filósofo respondeu até uma pergunta sobre Michael Jackson, enfatizando que ele seria mais uma vitima do sistema de exploração de imagens de artistas.

Boff também aproveitou a oportunidade para criticar o G20 que, segundo ele, “não está trabalhando para melhorar a vida das pessoas, mas para tudo voltar como estava antes da crise, e assim provocar um novo colapso”. O filósofo também chamou a atenção para a reunião da ONU, da qual participou dos dias 24 a 26 de Junho, em Nova Iorque, e que reuniu líderes de diversos países para discutir saídas para problemas como a fome, violência e aquecimento global.

Os Diálogos Contemporâneos traz todo mês uma personalidade para debater temas pertinentes à cultura e a melhoria de vida. O projeto, que sempre acontece na Câmara Municipal e tem entrada franca, além de Boff, já trouxe o Ministro da Cultura, Juca Ferreira e o navegador e escritor Amyr Klink, apresenta no dia 10 de Agosto o escritor e professor de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro.


Colaborador: Rodney Eloy


Fonte: Midiamax

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.
Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta:"conversão".
Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.
O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.
E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.
Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes ("só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral"), quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana.
Parafraseando Nietzsche: "quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar"?

Autor: Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor

Fonte: Adital

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Um ano de amizade com a sabedoria


Para o professor e jornalista Marcos Afonso, um filósofo é todo aquele que tem amor à sabedoria

LEANDRO CHAVES (*)
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RIO BRANCO – Se você pensa que para ser considerado um filósofo é preciso ter escrito diversos livros e ter o seu rosto estampado nas páginas dos livros de história, está enganado. Para o professor e jornalista Marcos Afonso, um filósofo é todo aquele que tem amor à sabedoria. É isso que ele fala a todos os novatos nas reuniões da Sociedade Philosophia, um grupo que se reúne para discutir as grandes idéias dos maiores pensadores da humanidade, onde tem o professor como criador e moderador geral.

Os membros do grupo realmente merecem ser chamados de amantes da sabedoria, pois quando ocorrem os encontros, eles lotam as cadeiras do auditório da Biblioteca da Floresta, onde são realizadas as reuniões. Durante cerca de duas horas, quinzenalmente nas tardes de sábado, todos os presentes entram em contato com a filosofia através de discussões, músicas, poesias, vídeos e curiosidades, modo um tanto quanto diferente das tradicionais aulas da disciplina nas escolas.

Talvez sejam esses os motivos de o grupo atrair tantos jovens. A maioria dos integrantes tem idade entre 17 e 26 anos, apesar de ser comum a presença de pessoas mais novas e com mais de 40. De acordo com Marcos Afonso, a Sociedade atrai muitos jovens "porque ela é moderna. E também porque quer fazer um diálogo entre a tradição e a modernidade, com recursos criativos". Seu princípio básico, de acordo com o professor, é preservar e promover a vida, não tendo preferência por religião, idade e ideologia.

A Sociedade

A idéia de criar o grupo surgiu no início de 2008, quando Marcos Afonso ministrou uma oficina chamada Nosso Tempo, Nosso Espaço para os estagiários e técnicos da Biblioteca da Floresta, instituição onde ocupa o cargo de colaborador. Após os três dias de reflexões sobre o tempo e o espaço, com a utilização de música, vídeos e outros recursos, hoje comuns nos encontros, foi sugerida a idéia de dar continuidade a todas essas discussões, nascendo assim a Sociedade Philosophia.

No dia 10 de maio de 2008 lá estava Marcos Afonso à espera de poucas pessoas ou ninguém, como sempre fala ao contar a história do grupo. Para sua surpresa, 21 cadeiras foram ocupadas na primeira reunião. Estava fundada a Sociedade Philosophia. Naquele momento, Marcos já tinha em mente o seu mais aventurado plano para o recém fundado grupo: reunir 40 pessoas e passar um fim de semana filosofando no meio da densa floresta amazônica.


Imersão no tempo e no espaço

A cada reunião da Sociedade Philosophia estruturava-se o projeto da viagem ao Seringal Cachoeira, no município de Xapuri. Até que no dia 27 de junho, cerca de 30 participantes da Sociedade, ao lado de alguns convidados, como a imprensa, um astrônomo, um seringueiro e uma família de índios, embarcaram rumo à floresta para conhecer o tempo e o espaço de quem vive nela. Todos passaram três dias em uma pousada ecológica, próximo onde vivem algumas famílias de seringueiros.

Durante a imersão, os jovens filósofos percorreram as trilhas na mata fechada; conheceram a realidade de quem vive na floresta; ouviram dos seringueiros como foram as lutas contra os fazendeiros na década de 70 e 80; aprenderam com os próprios índios como é a percepção indígena do tempo e do espaço; observaram, através de um telescópio, constelações e planetas; etc. Foi uma extensa programação com o objetivo de apresentar aos participantes uma outra realidade, pois muitos nunca haviam conhecido a floresta.

Ana Clélia Rocha é uma das participantes da Sociedade Philosophia. Apesar de morar no Acre, nunca entrou numa floresta, realidade comum entre muitos moradores da cidade. Ela esteve no Seringal Cachoeira durante a imersão e afirmou: "foi uma oportunidade única, uma coisa nova. Sempre quis conhecer um seringal e achei uma experiência interessante em ver os homens da floresta. Adoraria fazer tudo de novo".

Aniversário

Após a imersão, a rotina da Sociedade voltou ao normal com as discussões sobre as ideias dos filósofos. No dia 10 de maio de 2009, o grupo completou um ano de fundação e as comemorações não poderiam faltar. No dia nove de maio ocorreu um encontro especial onde foram lembrados alguns acontecimentos que marcaram a trajetória dos amigos da sabedoria.

Marcos Afonso relembrou como surgiu a idéia de montar a Sociedade, se mostrou satisfeito ao registrar que ao todo, mais de 500 pessoas se envolveram com o grupo e encerrou dizendo: "enquanto, de 15 em 15 dias, no Acre, pessoas se reunirem para discutir filosofia, o mundo terá esperança". Ao final, antes de chocolates e refrigerantes, foi dada a oportunidade para o público se manifestar com depoimentos emocionados, poesias e músicas, algo que os participantes da Sociedade Philosophia já estão acostumados a presenciar nesses 12 meses de encontros.

ENTREVISTA

Professor e jornalista, Marcos Afonso profere palestras há quase três décadas e hoje, além de moderar a Sociedade Philosophia, é colaborador da Biblioteca da Floresta Marina Silva. Abaixo, ele conta um pouco sobre a Sociedade e o porquê da sua criação.

Sabe-se que você nada ganha para manter a Sociedade na ativa. O que te levou a criar o grupo?

Marcos Afonso - Ganho sim, e muito. Rapaz, a maior alegria de um professor é estar na sala de aula. Agora imagina uma sala, no nosso caso um auditório, cheio de gente que ama a Filosofa! Então é a realização. Dar aulas é uma via de mão dupla. E também há o fato de eu não estar sozinho, existe todo um grupo de moderadores de apoio que dá sugestões, opera na logística, na divulgação e organização dos encontros. Participar da Sociedade é uma declaração de amor, e isso é o maior ganho.

Por que a Sociedade atrai tantos jovens?

Porque ela é moderna. E também porque quer fazer um diálogo entre a tradição e a modernidade, com recursos criativos e com uma boa dose de admiração, sem a qual, não daria certo.

Quem é a pessoa mais nova? E a mais experiente?

A pessoa mais nova é a Yasmin, que tem nove anos, estuda a quarta série e é uma das mais atentas, anota tudo, ao seu modo, claro. E a mais experiente é um senhor de aproximadamente 65 anos, que quando vai à reunião leva a esposa e os filhos. Não há limite de idade.

Qual é o segredo para deixar a filosofia, assunto considerado chato por muitas pessoas, atraente?

Primeiramente é falar de Filosofia com emoção, vontade e admiração, como algo essencial para a vida das pessoas, independente de época. Depois, é fazer uma ligação dialética e dialógica dos grandes pensamentos, estruturas, com os desafios dos dias atuais. Muito dos dilemas da condição humana são sentidos há milênios, com inúmeras avaliações e entendimentos. Então recolocá-los no tempo presente é uma necessidade para seguirmos em frente. O Mito da Caverna, de Platão, por exemplo, nunca esteve tão atual. Isso desperta as pessoas para a Filosofia e à compreensão de sua utilidade.

Por que a utilização de recursos como vídeo, música, poesia, etc?

Nos dias de hoje, uma boa aula sem algumas plataformas de comunicação como data-show, vídeo, power-point, música, internet, poesia, canto, teatro, fica irremediavelmente comprometida. Há muita rapidez. Então a didática tem de ser ágil, mas sem perder o conteúdo. Por isso nós seguimos o livro "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, como roteiro geral.

Colaborador: Rodney Eloy

Domingo, 12 de Julho de 2009

Na raiz do pensamento lógico

Pesquisadores brasileiros estão empenhados em criar um ambiente de discussão, em nível internacional, sobre a obra de Aristóteles

Um grupo de pesquisadores brasileiros está se dedicando a contribuir com a renovação dos estudos sobre o pensamento de Aristóteles (384 a.C. / 322 a.C.) e empenhado em criar um ambiente de discussão, em nível internacional, sobre a obra do filósofo grego.

O próximo produto desse esforço – orquestrado especialmente por docentes da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – será a publicação de uma coletânea de estudos sobre a ética aristotélica organizada pelo professor Marco Zingano, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Nos mesmos moldes, o grupo já havia lançado, em 2005, o livro Sobre a Metafísica de Aristóteles, além de diversas outras publicações.

Entretanto, a tarefa de incluir o Brasil no mapa do debate universal sobre o pensamento aristotélico não é fácil, de acordo com Zingano, que coordena o projeto temático “A Filosofia de Aristóteles”, apoiado pela FAPESP. Afinal, segundo ele, para que esse ambiente acadêmico exista é preciso formar uma massa crítica de estudantes que tenham domínio aprofundado do grego ático.
“Um trabalho acadêmico em filosofia requer uma intensa circulação de ideias e de pessoas, sem as quais os resultados tendem a ser tornar muito paroquiais. E a ideia por trás do projeto não é reproduzir o que Aristóteles disse, mas refazer e alargar a longa conversa erudita, com base no texto aristotélico, que gerou interpretações divergentes ao longo da história, formando nossa consciência”, disse Zingano.

De acordo com o acadêmico, que é considerado um dos principais especialistas em estudos clássicos no país, as idéias aristotélicas, continuamente debatidas ao longo dos séculos, até hoje são discutidas em função dos problemas atuais. “A própria formulação desses problemas depende da filosofia aristotélica, porque ele contribuiu de forma decisiva com a nossa forma de pensar”, afirmou.

A criação de um grupo de leitores de Aristóteles e a formação de um ambiente de discussão no país, segundo Zingano, deverá ter impacto importante na cultura nacional. “São temas de interesse geral. O quinto livro da Ética Nicomaqueia, por exemplo, é dedicado à teoria da Justiça. São temas que devem ser discutidos frequentemente, porque voltam à tona em cada época com características particulares. Hoje trata-se de um texto importante para discutir justiça social”, explicou.

Segundo ele, o projeto temático, que em sua primeira fase teve foco no estudo sistemático da ética e da metafísica de Aristóteles, foi ampliado para o estudo de todo o pensamento do filósofo, procurando evidenciar as relações conceituais vigentes entre suas diferentes disciplinas. O projeto, que envolve seis professores, deverá gerar até 2010 oito doutores e18 mestres e inúmeras publicações, além de contar com mais de 30 estudantes de graduação.

“É bastante difícil ainda estimular estudos clássicos no Brasil, porque é preciso dominar a língua, a história e a filosofia. Temos muitos alunos que vieram dos departamentos de letras e dominam bem o grego e o latim. Nossa tarefa é formá-los para a discussão filosófica. Quanto aos alunos que vêm da filosofia, exigimos que tenham forte formação em filologia, com domínio das duas línguas clássicas. A ideia é colocar à disposição do universo erudito pessoas muito bem formadas nessas áreas”, disse.

Segundo Zingano, os recursos do projeto temático permitem que a formação de recursos humanos seja complementada com uma interação intensa com grupos estrangeiros. “Parte desse projeto está ligado à antiga ideia do professor José Arthur Gianotti de construir uma base de textos traduzidos e comentários especializados sobre filosofia grega antiga”, afirmou o pesquisador.

Ética flexível

Além da ética e da metafísica – focos iniciais do projeto – o grupo tem discutido intensamente, segundo Zingano, a doutrina da ciência desenvolvida por Aristóteles em Segundos Analíticos. “Em Primeiros Analíticos ele formula a famosa regra do argumento lógico. Já em Segundos ele passa a examinar as mesmas regras do ponto de vista da construção de uma ciência – um conhecimento verdadeiro necessário e primeiro”, afirmou o professor.

A ética, para Zingano, é um dos principais aspectos de interesse do pensamento aristotélico para a atualidade. O filósofo grego escreveu pelo menos dois estudos sobre ética, nos quais procurou compreender o funcionamento do comportamento moral. Em relação a esse tópico, Zingano publicou, em 2007, o livro Estudos de Ética Antiga. Em 2008 foi a vez de Aristóteles: Ethica Nicomachea I 13 – III 8 Tratado da Virtude Moral.

“Contrariamente às nossas expectativas atuais de uma ética fundamentada em leis ou regras codificáveis, Aristóteles tentou compreender as decisões morais sob outro ponto de vista: um julgamento que depende de cada dado e das circunstâncias nas quais se encontra o agente. Uma consequência importante dessa perspectiva é que ela permite uma ética da virtude e foge do padrão deontológico – baseado em regulamentos – da ética moderna”, explicou.

Um dos produtos do projeto temático, segundo Zingano, foi a revista Filosofia Antiga, publicada duas vezes por ano, em maio e em outubro. “A revista, que vai entrar em seu terceiro ano, tem artigos de discussão e traduções. O objetivo é congregar os que trabalham com filosofia antiga na América Latina, servindo como ponto de discussão”, declarou.

Além da revista, o grupo mantém um seminário que é realizado em duas etapas: na primeira são discutidos textos gregos – atualmente Segundos Analíticos, de Aristóteles – e na segunda, especialistas brasileiros e estrangeiros são convidados para apresentar trabalhos sobre cada um dos temas do seminário.
“Ao mesmo tempo, procuramos realizar, pelo menos uma vez ao ano, um colóquio que reúna pesquisadores de diversos países que venham tratando de ideias importantes relacionadas ao pensamento aristotélico.”

Via: edsongil

Fonte:Fapesp

Sábado, 11 de Julho de 2009

O empirista e a teoria do conhecimento

Agência FAPESP – Os desafios interpretativos fundamentais da obra do filósofo escocês David Hume (1711-1776) correspondem ao eixo central do livro Hume e a Epistemologia, de João Paulo Monteiro.

Na obra, o autor expõe a visão de Hume sobre a teoria do conhecimento e da ciência, abordando as áreas da filosofia, da história, da teoria econômica, da política e da crítica da religião.

Monteiro é professor aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde segue orientando dissertações e teses – várias delas com apoio da FAPESP. Foi professor catedrático convidado na Universidade de Lisboa e na Universidade Lusófona, ambas na capital portuguesa. Escreveu, além de numerosos artigos sobre temas filosóficos em volumes e revistas nacionais e estrangeiras, Realidade e cognição, em 2003.

Tema central do pensamento de Hume, a teoria do conhecimento e da ciência é o foco dos três primeiros textos do livro. O quarto e o quinto ressaltam a crítica ao finalismo, enquanto o sexto especifica o discurso que precede essa crítica. O sétimo texto demonstra a relevância do confronto entre o escocês e o psicanalista Freud, em que são abordados os conceitos de prazer e de realidade propostos pelos pensadores. A tese da continuidade entre o conhecimento comum e o teórico é tratada no oitavo texto.

Com o pensamento de Hume como pano de fundo, o autor levanta e estuda questões epistemológicas atuais como o senso comum e seu relacionamento com a filosofia, a presença de objetos inobserváveis em ambos os casos e a fé perceptiva.

Colocando o conceito da indução na filosofia humeana em segundo plano, no conceito de raciocínio causal, Monteiro elimina as referências ao raciocínio e à indução, tratando delas apenas quando cita filósofos que abordam o tema, como Francis Bacon.

O livro acompanha de perto o vocabulário e a linguagem humeana, retratando ideias e conceitos complexos de forma a evidenciar a riqueza de detalhes do pensador escocês.



•Hume e a Epistemologia
Autor: João Paulo Monteiro
Lançamento: 2009
Páginas: 228
Preço: R$ 35
Mais informações: www.editoraunesp.com.br

Colaboração:Rodney Eloy

Fonte: Fapesp

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

O que faz o filósofo?

Magistério é o destino da maioria dos formados em Filosofia. Outros tantos encontram no curso o complemento para uma visão crítica da carreira profissional escolhida noutra graduação

Luar Maria Brandão
Especial para O POVO
04 Jul 2009 - 15h38min


Nem só de tecnologias vive a sociedade moderna. O cotidiano do mundo permeado por complexos problemas e discussões sociais faz imprescindível o trabalho de profissionais da área de humanas. Nesse contexto, a atuação crítica e radical do filósofo dentro da totalidade do conhecimento é cada vez mais necessária, mas enfrenta certos preconceitos dentro do mercado de trabalho. Ser filósofo é uma missão ou pode ser definido como ofício?

Segundo o coordenador do curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC), professor José Carlos de Almeida, esse dilema surgiu ainda na Grécia Antiga, quando Sócrates (479-399 a.C) inaugurou a Filosofia Clássica e os pensamentos metafísicos na busca do fundamento último das coisas. Mas hoje esse é de fato um exercício profissional regulamentado, "ainda que existam dúvidas na mente das pessoas", afirma o professor.

Enquanto profissional formado exclusivamente em Filosofia, há duas opções de carreira: a da licenciatura e a do bacharelado. Como licenciado, ele poderá ensinar Filosofia nas escolas de Ensino Médio e, com Mestrado e Doutorado, seguir o magistério nas universidades - que geralmente oferecem melhor remuneração. Já quem é habilitado bacharel trabalha como pesquisador, dando continuidade à pesquisa iniciada na pós-graduação.

Para além das duas habilitações, o exercício filosófico pode se dar em outras áreas da sociedade, uma vez que a Filosofia é a atuação da crítica rigorosa em diversos âmbitos do conhecimento. "Existe a Filosofia da Arte, da Literatura, do Direito, da Física, das Ciências Biológicas. Isso porque ela (a Filosofia) se debruça sobre a totalidade das coisas e inclui as diversas áreas do mercado de trabalho", explica José Carlos.


FILOSOFIA PARA NÃO-FILÓSOFOS

Profissionais já formados encontram nesse curso o complemento crítico para a carreira

De acordo com a professora de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará, Eliana Paiva, a maioria dos alunos formados nessa graduação ou entra no mercado de trabalho contribuindo filosoficamente na licenciatura ou vai para a universidade atuar como pesquisador. Existe uma outra classe de alunos, no entanto, que estuda Filosofia para complementar a carreira profissional escolhida na Medicina, na Engenharia, no Direito e nas Ciências Sociais, para citar alguns exemplos.

"Esses profissionais formados em Filosofia já veem a segunda profissão de uma maneira enriquecida. São pessoas mais críticas: é um literato mais criativo, um político mais engajado, um paisagista mais livre. Ou seja, pessoas que não se contentam com uma só versão. A Filosofia viabiliza uma visão mais complexa de mundo", afirma a professora Eliana. Para ela, a formação em Filosofia dá direito a um encontro com novas potencialidades e indignações.

A estudante Anne Aguiar, 24, terminou no ano passado a graduação em Filosofia na UECE e já engatou no curso de Direito. "Amo a advocacia. Trabalharia sem problemas com a Filosofia, mas dentre as paixões prevalece o Direito", diz a estudante. Anne explica que decidiu cursar Filosofia porque era um "investimento necessário" para ser advogada. "A Filosofia nos faz refletir, absorver e refratar o pensar. Nos demais cursos, as perguntas chaves para a graduação geralmente definem-se em "o que é..". A Filosofia é magnífica, porque aduz o "por que".

O professor José Carlos de Almeida, coordenador do curso de Filosofia da UFC, também acredita na importância da interlocução da Filosofia com outras áreas do conhecimento, uma vez que ela ajuda a pensar os princípios e as causas únicas das ciências. "A filosofia é a mãe da ciência, mas os filhos estão esquecendo dela, principalmente porque o que pesa é a questão econômica. Muitos se perguntam como viver de Filosofia", afirma.

Outros caminhos
Mas, segundo ele, o filósofo pode atuar junto à Política e até no setor de recursos humanos de empresas. A professora Eliana Paiva chama atenção para essa "ambivalência do filósofo", que por se inquietar diante dos questionamentos próprios e dos outros, pode participar da sociedade a partir do engajamento político, através das mídias, das críticas nos jornais. Ela lamenta, no entanto, a resistência dos veículos de comunicação.

Para exemplificar, a professora cita a questão da violência. O filósofo é capaz de debatê-la, transformar eventos já tão banalizados em questionamentos, para que a população perceba o que está por trás dos problemas da sociedade e não a reduza à suas causas. "Filósofos questionam, mostram o cerne da questão, enquanto sociólogos e psicólogos sugerem soluções. Agora, é preciso uma guinada na importância desprendida ao filósofo. Deve-se abrir caminhos para que o filósofo intervenha na sociedade", afirma.

Colaboração: Rodney Eloy

Fonte: Opovo

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Encíclica social Caritas in veritate Bento XVI

INTRODUÇÃO
1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — « caritas » — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).
2. A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus — a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos. Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo porque, como ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança.
Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar com o risco, daí resultante, de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valorização. Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, não só na direcção assinalada por S. Paulo da « veritas in caritate » (Ef 4, 15), mas também na direcção inversa e complementar da « caritas in veritate ». A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente senão mesmo refractário à mesma.
3. Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente « Agápe » e « Lógos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.
4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é « lógos » que cria « diá-logos » e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjectivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projectos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática.
5. A caridade é amor recebido e dado; é « graça » (cháris). A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo 13, 1), é « derramado em nossos corações pelo Espírito Santo » (Rm 5, 5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.
A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar resposta a doutrina social da Igreja. Tal doutrina é « caritas in veritate in re sociali », ou seja, proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade; é serviço da caridade, mas na verdade. Esta preserva e exprime a força libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novas da história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da razão, na distinção e, conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas sócio-económicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os actuais.
6. « Caritas in veritate » é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da acção moral. Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento numa sociedade em vias de globalização: a justiça e o bem comum.
Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar » ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é « inseparável da caridade »[1], é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida mínima » dela[2], parte integrante daquele amor « por acções e em verdade » (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da « cidade do homem » segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão[3]. A « cidade do homem » não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.
7. Depois, é preciso ter em grande consideração o bem comum. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele « nós-todos », formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social[4]. Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. Este é o caminho institucional — podemos mesmo dizer político — da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade que vai directamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais da pólis. Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. Aquele, como todo o empenho pela justiça, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no tempo, prepara o eterno. A acção do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações[5], para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.
8. Ao publicar a encíclica Populorum progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento [6] e deixou-nos a recomendação de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a nossa inteligência[7], ou seja, com o ardor da caridade e a sapiência da verdade. É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num « desenvolvimento do homem todo e de todos os homens »[8], numa passagem « de condições menos humanas a condições mais humanas »[9], que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.
Passados mais de quarenta anos da publicação da referida encíclica, pretendo prestar homenagem e honrar a memória do grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos mesmos traçada para os actualizar nos dias que correm. Este processo de actualização teve início com a encíclica Sollicitudo rei socialis do Servo de Deus João Paulo II, que desse modo quis comemorar a Populorum progressio no vigésimo aniversário da sua publicação. Até então, semelhante comemoração tinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados outros vinte anos, exprimo a minha convicção de que a Populorum progressio merece ser considerada como « a Rerum novarum da época contemporânea », que ilumina o caminho da humanidade em vias de unificação.
9. O amor na verdade — caritas in veritate — é um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das liberdades.
A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer [10] e não pretende « de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »[11]; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, compõe numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos[12].

Para ler o texto na íntegra clique http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html

Eco-simplicidade

O que se opõe à nossa cultura de excessos e complicações é a vivência da simplicidade, a mais humana de todas as virtudes, presente em todas as demais.

A simplicidade exige uma atitude de anti-cultura pois vivemos enredados em todo tipo de produtos e de propagandas. A simplicidade nos desperta a viver consoante nossas necessidades básicas. Se todos perseguissem esse preceito, a Terra seria suficiente para todos. Bem dizia Gandhi:”temos que aprender a viver mais simplesmente para que os outros simplesmente possam viver”.

A simplicidade sempre foi criadora de excelência espiritual e de liberdade interior. Henry David Thoreau(+1862) que viveu dois anos em sua cabana na floresta junto a Walden Pond, atendendo estritamente às necessidades vitais, recomenda incessantemente em seu famoso livro-testemunho: Walden ou a vida na floresta: “simplicidade, simplicidade, simplicidade”. Atesta que a simplicidade sempre foi o apanágio de todos os sábios e santos. De fato, extremamente simples eram Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi e Chico Mendes entre outros.

Como hoje tocamos já nos limites da Terra, se quisermos continuar a viver sobre ela, precisamos seguir o evangelho da eco-simplicidade, bem resumida nos três “erres” propostos pela Carta da Terra:”reduzir, reutilizar e reciclar” tudo o que usamos e consumimos.

Trata-se de fazer uma opção pela simplicidade voluntária que é um verdadeiro caminho espiritual. Esta eco-simplicidade vive de fé, de esperança e de amor. A fé nos faz entender que nosso trabalho, por simples que seja, é incorporado ao trabalho do Criador que em cada momento ativa as energias que produzem o processo de evolução.

A esperança nos assegura que se as coisas tiveram futuro no passado, continuarão a ter no presente. A última palavra não a terá o caos mas o cosmos. Para os cristãos, o fim bom já está garantido, pois alguém de nós, Jesus e Maria, foram introduzidos corporalmente no seio da Trindade.

A eco-simplicidade nos faz descobrir o amor como a grande força unitiva do universo e de Gaia. Esse amor faz com que todos os seres convivam e se complementem. Na modernidade, nós nos imaginávamos o sujeito do pensamento e a Terra o seu objeto. A nova cosmologia nos afirma que a Terra é o grande sujeito vivo que através de nós sente, ama, pensa, cuida e venera. Consequentemente, importa pensarmos como Terra, sentirmos como Terra, amarmos como Terra pois, na verdade, somos Terra, espécie homo, feito de húmus, de terra boa e fértil.

Ao sentirmo-nos Terra, vivemos uma experiência de não-dualidade que é expressão de uma radical simplicidade. Algo da montanha, do mar, do ar, da árvore, do animal, do outro e de Deus está em nós. Formamos o grande Todo. Uma moderna legenda dá corpo a estas reflexões:

Certa feita, um jovem iniciante na eco-simplicidade, foi visitado, em sonho, pelo Cristo ressuscitado e cósmico. Este o convidou para caminharem juntos pelo jardim. Depois de andarem por longo tempo, observando, encantados, a luz que se filtrava por entre as folhas, perguntou o jovem: "Senhor, quando andavas pelos caminhos da Palestina, disseste, certa feita, que voltarias um dia com toda a tua pompa e com toda a tua glória. Está demorando tanto esta tua volta! Quando, finalmente, retornarás, de verdade, Senhor"? Depois de momentos de silêncio que pareciam uma eternidade, o Senhor respondeu: "Meu irmão, quando para ti, minha presença no universo e na natureza for tão evidente quanto a luz que ilumina este jardim; quando minha presença sob a tua pele e no teu coração for tão real quanto a minha presença aqui e agora; quando não precisares pensar mais nela nem fazeres perguntas como esta que fizeste, então, meu irmãozinho querido, eu terei retornado com toda a minha pompa e com toda a minha gloria”.


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Leonardo Boff é teólogo. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística.

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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O Riso de Sócrates - Argumento Para Uma Comédia Filosófica


Sócrates, o filósofo grego que transferiu a atenção do pensamento antigo da natureza para o humano, com seus deveres, faculdades e destino, imaginou-se fugindo do cárcere ao qual fora submetido após ser condenado à morte. Aventura relatada na obra de Platão, Critão, ou o Dever, ela contém seqüências dignas de um tratamento dramático, com cenas até espirituosas demais para quem estava às portas de um fim trágico. Sob a coação de Critão, seu velho amigo de argumentos azafamados, Sócrates apresentou as conseqüências de uma hipotética fuga, mostrando o quão injusto seria viver em tais circunstâncias, faltando aos compromissos para com a cidade e as Leis as quais jurou cumprir, assim como para consigo mesmo e sua filosofia.
O filósofo levou o amigo a ver o motor movendo-o em direção àquela decisão fatal de submeter-se à sentença, motor independente da opinião da multidão, mas, ao invés, a depender do que diz uma única autoridade, a Verdade em si. Ao contrário das idéias embaralhadas de Critão, Sócrates perseguiu ainda, mesmo nas conjunturas de ameaças de prisão e morte, coerentemente a sua lógica de “viver bem, viver com honra e viver conforme a justiça” (Platão. Critão, ou o Dever – in Diálogos, Cultrix, São Paulo, 1991), como sempre procurou seguir. Para atingir tal propósito, esse homem virtuoso procede de modo a não cometer injustiça voluntariamente e, em razão disso, principia por comprovar o acerto dos pensamentos anteriores à situação ali presente de acusações, retomando as idéias consensuais entre ele e seus discípulos a respeito das opiniões boas e más.
Nessa análise gnosiológica, Sócrates confirmou a impossibilidade de acatar todas as opiniões a um só tempo, mas apenas umas dentre aquelas; assim como não as opiniões de todos os homens, mas apenas de uns dentre eles. Com mais precisão, aprovou também um antigo ensinamento, o de aceitar só as opiniões boas, as dos sensatos, e rejeitar as ruins, as dos mentecaptos. Estendendo esse raciocínio para as grandes questões, à do justo e do injusto entre elas, o filósofo do não-saber concluiu que se deve ouvir somente o ditado pelo único entendido, e não o da voz dos demais juntos. A desobediência ao daquele em proveito do deste pode resultar na corrupção daquilo “que melhora com a justiça e se arruina com a injustiça” (Platão, op. cit.), isto é, o corpo, com o qual em estado de ruína não podemos viver bem. Assim, o viver bem está diretamente relacionado com o viver conformado ao justo, e este não se liga na opinião de todos, mas sim na Verdade do único entendido.
Aproximou Sócrates as opiniões de Critão com as da multidão, quando este, numa tentativa desesperada de fazer o amigo mudar de idéia na sua decisão, acusou o marido de Xantipa de escolher o caminho da comodidade, optando por trair os filhos e abandoná-los na orfandade, em detrimento da outra opção possível de criá-los e educá-los. São argumentos, disse o filósofo, de quem seria capaz de matar em nome das opiniões da multidão. No entretanto, preferisse o Hades, o pai morto deveria deixar os filhos por conta de amigos; escolhesse a Tessália e o vivo desterrado seria obrigado, também, a deixar os filhos sob os cuidados dos mesmos atenienses, porquanto não poderem seguir indefinidamente o pai, pesando na prole a dívida de outros tantos benefícios. Enfim, acatar a essas opiniões postulando o plano de fuga de Critão, seria o mesmo que cometer uma violência contra a pátria, esta mais venerada pelos deuses, ou seja, seria, portanto, uma impiedade.
Ao desertar e negar como se fossem inoperantes as sentenças proferidas pela cidade, depois de convencionada, em acordo firmado sem engodo ou urgência, a submissão a elas pelo cidadão Sócrates, ficaria configurada a tentativa sovina do réu de destrui-las. E, quanto à flexibilidade das Leis, nunca houve dúvidas: sempre se permitiu a qualquer um dissuadi-las por vias legais, caso notasse o erro; também emigrar, quem não quisesse submeter. Ora, ao fujão ateniense juntaria, nas condições imaginadas, o agravante de ter vivido setenta anos no torrão natal como um verdadeiro turrão – ou cego, ou coxo – sem jamais dali tirar as sandálias, sem nem pensar em mudar-se a outra cidade de seu agrado, nem a Creta ou a Esparta, vistas por ele como de boas leis. Assim, pela dialética socrática aplicada a ele mesmo, somos levados a crer que Sócrates gostava tanto de Atenas quanto de suas Leis, a ponto de submeter à soberania delas para gerar os seus filhos, assim como ele próprio fora educado por intermédio das mesmas sentenças. Qualquer tentativa de destrui-las devia ser entendida, segundo essas condições, como injustiça, como uma desforra, à vista de dramáticas investidas da Lei sobre o réu. Note-se a retribuição vergonhosa de injustiça com injustiça, defendida por Critão e a qual foi trazida à luz pelo exame criterioso do filósofo sereno e correto.
Notemos, ademais, como buscava fugir, o próprio Critão, de sua vergonha pela situação dele e dos amigos junto ao caro amigo assuntado. Imaginemos ainda o eco, por entre os pilares de Fídias, dos comentários maliciosos tendo os discípulos à boca pequena de risos devassos. Torturava-se Critão por esse fado e a Sócrates confessou o encolhimento moral perante o público, o medo de ser tachado de covarde por ter faltado voz suficiente para dissuadir o réu de aparecer no tribunal e, depois, para convencê-lo de abrir-se à proposta de fuga pelos subornos antevistos. No entanto, se aos olhos do atormentado, porém brioso, Critão o desfecho desse processo propalava-se ridículo, ao filósofo nada podia ser mais honroso.
Desnecessário será lembrar que a Sócrates é injusto o suborno, mais ainda nas circunstâncias as quais foi aventado. Se perante o tribunal a recusa pela opção do exílio sustentou-se, enquanto a morte mostrou-se como a melhor escolha; depois da decisão tomada, a honra às palavras pronunciadas seria exigida com mais vigor. Nesse sentido, levar a cabo a paga do suborno e a fuga seria negar toda uma vida de justiça e virtude. Imaginemos com Sócrates.
De fato, o filósofo não poderia ser um dos hóspedes de Critão, na Tessália – e eis que Sócrates esbanja talento para as coisas das comédias, quando, referindo-se à narração de sua fuga aos estrangeiros, mete-se num bergsoniano “surrão de couro ou noutro disfarce habitual dos evadidos, e dissimulando esse jeito que é o teu” (Platão, op. cit.) – pois naquela terra ele estaria em meio a pessoas de pouco interesse pelas questões da alma. Sofrível, portanto, seria a vida apegada com tanto temor à existência, ridícula com muita exatidão, risível e digna de indignidades incontáveis, sujeita aos favores de toda gente dissoluta pela glória de taças a extravasar vinho. Talvez nem entre os dionisíacos beberrões, uma cidade sem lei consiga captar adeptos para sua causa da não regularidade.
Enquanto seus amigos estariam em uma condição de investigados pela Lei de Atenas, correndo o risco de perderem os direitos de cidadãos, o imaginário Sócrates fujão faria uma peregrinação em busca de uma terra com boas leis que o aceitasse, talvez Tebas ou Mégara. Quando entrasse, porém, nessas cidades, os olhos dos cidadãos zelosos o reconheceriam como o inimigo das instituições, destruidor de leis e, por conseqüência de qualidades devastadoras e para vitória dos juízes atenienses, o corruptor de jovens e levianos. Em demanda ainda de um lugar para fundear, decidisse quiçá por uma cidade sem as tais boas leis, nem bons homens, nem bons costumes. Quem sabe se o filósofo pudesse, enfim, confirmar na prática, a idéia de que o povo é regido pelo acaso, e sendo incapaz de praticar os maiores males, também o é para os maiores benefícios? Estando a imaginação a correr solta, tomemos a seqüência do inventor da maiêutica tentando entrar em contato com os habitantes de uma terra de ninguém e a discorrer sobre “o supremo valor que têm para a Humanidade a virtude, a justiça, assim como a legalidade e as leis” (Platão, op. cit.). Claro que imaginação prezada é imaginação não represada, portanto, caracterizemos o povo tal como os bárbaros da Trácia... pobre Sócrates!
À parte a fantasia, a trajetória inventada por Sócrates leva a conclusões muito sólidas, sustentadas por sua vida de coerência e retidão. Assim, mostra que a fuga nessas circunstâncias desenha-se ao modo de caricatura, isto é, torna horrorosa a imagem dele mesmo e a de seus amigos, e também a de sua pátria, uma vez que, assim procedendo, foge aos compromissos firmados desde que convencionara submeter-se às Leis. Essa atitude acarreta a retaliação também por parte das Leis do Hades, pois são irmãs das de Atenas e zelam por elas. Eis porque o filósofo prefere não colocar a sua existência acima da existência da justiça, pois diante do grande Tribunal do Hades quer se pôr e permanecer justo, sem necessitar de dar explicações ao injustificável. Desse modo, o final dessa história é feliz.
Para finalizar, deixemos só notado que o bom humor de Sócrates nos últimos dias de sua vida é surpreendente e, após um possível trabalho de pesquisa de aprofundamento, talvez tenhamos condições de criar, a partir de Critão, uma comédia leve e apologética. Com a abertura das cortinas, o protagonista dormindo em sua cela, tendo ao lado seu Daimon também em sono profundo, surge a mulher formosa sob a luz de pino, anunciando a chegada do navio de Delos... Esperemos que essa obra menor tenha a aprovação do grande empreendedor da ironia.


Autor: Mario Donadon Leal


Fonte: UEM

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Sobre a morte e o morrer


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida deum ser humano? O que e quem a define?



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Autor: Rubem Alves


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Alunos da USP contam com apoio da Professora Marilena Chauí para eleição direta para Reitor

Após mais uma rodada de negociações durante a tarde de ontem, o Conselho de Reitores das três universidades estaduais paulistas, USP, Unesp e Unicamp, encerrou as negociações com o Fórum das Seis, entidade que reúne representantes de professores, alunos e funcionários. Não houve alteração na proposta apresentada aos grevistas, de reajuste de 6,05%, e não foi agendado um novo encontro. Em resposta, o Fórum das Seis decidiu que cada categoria decidirá agora em assembleia o fim da greve, que já está esvaziada por causa das férias.

Hoje, a reitora da USP, Suely Vilela, terá um encontro com o sindicato dos funcionários (Sintusp) para debater as reivindicações específicas da categoria - na última reunião, houve avanço nas negociações entre eles. Professores da USP e Unesp também deverão realizar suas próprias assembleias.Na Unicamp, professores e funcionários voltaram ao trabalho na semana passada.

Inicialmente, o Fórum das Seis pedia reajuste de 16% mais R$ 200 - números que ontem caíram pela metade na proposta feita aos reitores, que não foi aceita nem discutida.

Antes do começo da negociação, os grupos em greve organizaram um ato em frente ao prédio da reitoria e lançaram um fórum pela democratização das universidades. Eles pedem a eleição direta para reitor e contam com apoio de professores como a filósofa Marilena Chauí.

Estudantes de Filosofia divulgaram uma nota sobre a polícia militar, mostrando solidariedade "não ao policial fardado que reprime manifestações sociais como máquina de força, mas aos trabalhadores que, como policiais militares, são trabalhadores de exceção".

HISTÓRICO

Na USP, piquetes que bloqueavam a entrada de prédios levaram a reitoria a recorrer à Justiça, o que resultou na presença da Polícia Militar para liberar os acessos. O movimento acirrou-se no dia 9, quando houve um confronto entre a PM e estudantes, com lançamento de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Assembleias e manifestações contrárias à presença da polícia passaram a conviver quase que diariamente com protestos contra a greve, que ficou concentrada nas Faculdades de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Educação e Psicologia. Todas as outras unidades do câmpus continuaram com suas atividades regulares - algumas delas, como a de Direito, já até concluíram as provas finais e entraram em férias.

Fonte: Estadão

Domingo, 5 de Julho de 2009

Sarkozy, a burca e Hegel

O baixinho é enfezado. O baixinho fala grosso. Num francês danado de bonito. Nicolas Sarkozy.

Parece até estar cantando loas, o tempo todo, à graça e ao encanto de sua excelentíssima esposa, senhora Carla Bruni, primeira-dama que, para mim, que entendo um pouco disso, dá de 10 a zero na Michelle Obama, que me desculpem os admiradores do casal 20 norte-americano.

O baixinho não brinca em serviço. O baixinho manda brasa. Sarkozy. Outro dia, quando menos se esperava, em discurso muito divulgado, pronunciou-se contra o uso da burca na França.

Burca. Vocês manjam. Aquele traje usado pelas muçulmanas para cobrir o corpo todo deixando só os olhos à mostra. Na França de Sarkozy não há lugar para esse tipo de vestimenta.

Numa sessão especial do Parlamento reunido em Versalhes, o alto (ou baixinho) dignitário disse que o uso da burca "reduz a mulher à servidão e ameaça sua dignidade". Foi além, conforme noticiamos aqui mesmo neste website: "[A burca] não é sinal de religião mas de subserviência".

Tudo indica que o líder francês apoia a criação de uma comissão parlamentar para analisar a proibição do uso da burca em lugares públicos no país. Encerrou sua perigosa peroração (atenção, todo cuidado é pouco ao mexer com islamismo) advertindo: "Não podemos aceitar que tenhamos em nosso país mulheres presas atrás de redes, eliminadas da vida social, desprovidas de identidade".

Encerrado o discurso, Nicolas Sarkozy pegou o rumo de casa, onde jantou muito bem na companhia de sua deliciosa cara-metade, vestida num terninho ultra-feminino dos mais chiques, e, para complementar a noitada, pôs no sistema de som do Elysée o mais recente disco de Carla Bruni, que, revelo o que todos sabem, canta muito melhor que Michelle Obama.

Um porém nessa história. Um porém sério. Sarkozy não leu direito (se é que leu) Hegel. O fato foi apontado por mais de um colunista atento aqui no Reino Unido. Eu mesmo, velhusco e algo esquecido, notei o fato. Sarkozy deveria ter refletido sobre aquela passagem de Hegel, em seu Filosofia do Direito, onde ele observa que todos nós temos a obrigação de distinguir a liberdade concreta da abstrata.

Liberdade abstrata, só para lembrar, é aquela em que você pode fazer o que quiser, contanto que escolha uma entre as 45 pastas de dente que o mercado oferece e as revistas e a televisão anunciam. Sendo que todas elas fazem o mesmo trabalho que uma escova, água e sabão fariam. É uma liberdade que veio no finzinho do capitalismo. Assim como quem não quer nada. E levando tudo. Inclusive a identidade que eu e você, e uma moça ou senhora de burca, construíram.

Para Hegel, essa liberdade abstrata não constitui liberdade coisíssima nenhuma. Uma vez que estamos nos limitando a seguir as determinações de uma sociedade danada de canalha. Hegel era um homem fino e jamais chamaria uma sociedade de canalha. Isso fica por minha conta.

Portanto, deduzindo e levando adiante o pensamento do prendado alemão: qualquer pessoa que faz parte da sociedade ocidental é uma vítima da moda, ou seja, aquilo que no Brasil é chamado, sem ironia, de fashion. (A língua inglesa é uma espécie de burca que ambicionamos vestir.) Uma mulher, seja ela a Carla Bruni ou a Michelle Obama, é prisioneira das vestimentas que escolheu, ou melhor, que a sociedade escolheu para ela.

Liberdade, para valer, no conceito de Hegel, é deixar de lado o condicionamento social e partir para a racionalização. Racionalização é mais embaixo. Ou mais em cima. Em suma, toda essas senhoras, saibam elas ou não, estão --claro-- de burca.

Procura-se uma identidade. Precisa-se de duas, três (como diria "El Che"), muitas comissões parlamentares em todo o mundo. As mulheres não tem nada a perder a não ser seu batom, maquiagem, cachecóis, saltos agulhas, pretinhos da Chanel, desmatamentos brazilian, tangas... etc... etc...

Sábado, 4 de Julho de 2009

Estética - Kant, Hegel, Plotino e Adorno ( Rabiscos)

1)Explique a fruição da beleza segundo a perspectiva subjetivista de Kant e quais seus impactos para o campo da estética?

Segundo Kant, a beleza não é propriedade do objeto, mas é antes resultado de uma construção do sujeito, temos assim uma postura subjetivista. Kant acredita que não é possível que os problemas estéticos sejam resolvidos, isso porque reconhece uma discrepância entre juízos estéticos ( não emitem conceitos, mas apenas decorrem da simples apreensão pessoal do contemplador diante do objeto ex: esta rosa é bela, este juízo exprime somente o fato de que tal rosa me agrada, ou seja, juízo de gosto, difere do juízo de conhecimento pelo fato ser subjetivo)e juízos de conhecimento (emitem conhecimentos e possuem validade universal, pois se baseiam em propriedade do objeto ex: esta rosa é branca, estou emitindo um juízo de conhecimento).
O juízo de gosto ou estético não produz um relativismo? O que agrada a mim não pode agradar o outro, Kant responde que uma sensação de prazer que o sujeito sente diante de um objeto não significa que seja relativo, pois aquele sujeito, não se conforma que aquele quadro seja belo somente para ele.

2) Explique a crítica de Adorno à sociedade contemporânea, destacando o papel da arte em sua crítica?

A arte contemporânea não é diversão ou entretenimento (tal como na indústria cultural). Ela é mesmo anti-social, pois despreza normas e preceitos preconcebidos socialmente e, portanto, tem como característica a autonomia. Mas apesar desse hermetismo, ela não é autista, pois dialoga com a sociedade. A Arte contemporânea exprime o sofrimento humano e é pro isso que ela utiliza materiais que não são agradáveis nem belos, muitas vezes vistas como obras irracionais, mas que nos permite descortinar os véus que encobrem os absurdos cometidos pela sociedade capitalista conta nossa individualidade concreta.

3) Explique a teoria Plotínica do Belo e sua importância para a estética medieval?

Plotino discorda da solução aristotélica, procurando desconstruir tal argumento o filósofo defende que aqueles que julgam o belo como a harmonia do todo, ignoram as partes que constituem esse todo, e ao fazê-lo, não reconhece ser impossível que uma totalidade bela seja constituída de partes feias. Plotino descarta a idéia de uma beleza do todo em detrimento das partes, defendendo, em sua obra Enéada, uma beleza simples.
Plotino, assim como para Platão , as belezas do mundo sensível são como sombras ou simulacros de uma beleza absoluta, que chegaram à matéria e a adornaram, ao acessar essas belezas terrenas, o individuo é levado a recordar-se da beleza absoluta que conhecera, entretanto assim em êxtase diante do BELO.
Para ele, a alegria que a alma sente diante de uma obra bela origina-se no fato de que, diante dela, nós sentimos que estamos diante da chispa de uma outra alma humana, esse encontro caracteriza a alegria diante da obra. Seu pensamento estético foi de suma importância para o pensamento primitivo medieval e para os escolásticos. Tanto Santo Agostinho e São Tomás de Aquino trazem sua marca.
Plotino também discorre brevemente sobre o assunto, pondo em causa a idéia de que o belo possa ser medido pela grandeza e pela ordem. Plotino segue ainda Platão e conclui que tais critérios apenas servem a beleza física, ignorando a beleza moral

4) Explique a questão do Belo para Hegel?

Hegel afirma que a Beleza “se define como manifestação sensível da idéia”, tendo em vista que “a unidade da idéia e a da aparência individual é a essência da Beleza e de sua produção na Arte”. Hegel considera a beleza como manifestação da unidade (idéia ou absoluto) no ser individual (obra material).

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

A santa Aliança: cinco séculos de espionagem do Vaticano (Livro)

Caros leitores
Este é um título impactante não? Mas devemos considerá-lo.
Sabemos que a Igreja exerce não só um poder espiritual mas também um poder temporal.

O Papa é um chefe de Estado. E para tanto, necessita de uma organização que os faz saber tudo o que acontece no mundo.
A pergunta é a seguinte: existiu ou existe uma rede de espionagem na Igreja Católica?
Áh! Esperem. Não venham me acusar de leitor assíduo de Dan Brown. Nunca li se quer uma obra deste pobre cidadão.

Por favor, não leiam o artigo pensando que foi pinçado da obra "Anjos e demônios".
Mas como o blog é um lugar de discussão. Vou postar algo sobre o assunto.*

* Notas do editor Marcos

Livro: Santa Aliança

O temido serviço secreto do Vaticano, na Itália. E assim raciocinavam também ao menos outros 39 religiosos que atuaram no comando das organizações de espionagem e contraespionagem ligadas ao Estado do Vaticano desde a sua criação em 1566.
Fartamente documentadas, as revelações estão detalhadas no livro "A Santa Aliança: Cinco séculos de espionagem do Vaticano" (Editora Boitempo), do jornalista e pesquisador Eric Frattini.
Ele embasa as suas afirmações em amplas pesquisas realizadas há pelo menos 12 amos em arquivos oficiais da Igreja de diversos países.

A Santa Aliança foi criada por ordem do papa Pio V com o objetivo de assassinar a rainha Isabel da Inglaterra, que era protestante, para restaurar o catolocismo no país.
De lá pra cá, 40 pontífices assumiram o comando da instituição e atuaram com mais ou menos rigor junto aos trabalhos de seus espiões. Segundo Frattini, houve um único papa que dispensou categoricamente os serviços desse organizmo. Trata-se do papa João XXIII. Ele teve a coragem de enfrentar esse setor do Vaticano, que em seu entendimento trazia mais problemas do que soluções ao pontificado, e por isso ficou historicamente conhecido como o Papa Bom ou o papa da Bondade.

Uma das atuações mais polêmicas da Santa Aliança se deu durante a II Guerra Mundial. Foi quando entrou em vigor a chamada Operação Convento, que ajudou na fuga de criminosos de guerra nazistas, entre eles o general da SS Hans Fischbock, o tenente-coronel da SS Adolf Eichaman e o médico de Auschwitz Josef Mengele. O padre Karlo Petranovic e o bispo Gregori Rozman, notório antissemita, foram bastante ativos nessa época.

Na década de 70, o autor menciona a atuação da Aliança na perseguição aos sacerdotes progressistas que defendiam a Teologia da Libertação, entre eles o frade brasileiro Leonardo Boff, ações que contaram inclusive com o apoio da CIA.
A Igreja também teria incrementado os fundos do Banco do Vaticano através da venda de armamentos a países em conflito. Frattini dá como exemplo o que se passou durante o pontificado de João Paulo II. Proprietário de 58% da companhia armamentista Bellatrix, com sede no Panamá, o banco faturou comercializando mísseis Exocet com o governo ditatorial da Argentina durante a Guerra das Malvinas travada entre o país e a Inglaterra em dispusta das Ilhas Malvinas, na década de 80.

As conexões internacionais do Vaticano são vastas: o dinheiro obtido com a venda desses mísseis teria sido usado para financiar o sindicato Solidariedade na Polônia e diversas ditaduras sul-americanas.
Além da Argentina, houve intervenção na ditadura de Nicarágua. Haiti, El Salvador.
Depois que Ronald Reagan assumiu o poder nos EUA, a organização passou a contar efetivamente com o apoio da CIA, o que a tornou ainda mais atuante. Entre 1979 e 1982, cinco cardeais envolvidos em um inquérito que apontava irregularidades no Banco do Vaticano morreram em decorrência de motivos diversos - essas mortes teriam sido encomendadas para previnir que esses religiosos acabassem por revelar segredos da Santa Aliança. Essa teoria conspiratória lembrra os romances de Dan Brown? Claro, com a diferença que os fatos e os personagens não são mera coincidência.


Fonte: Revista Isto É - ano 32 nº2068 - 1º de julho 2009

Quer saber mais sobre este assunto?
FRATTINI, Eric. A Santa Aliança: Cinco séculos de espionagem no Vaticano. Ed. Boitempo, São Paulo: 2009

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Foucault, 25 anos depois

Sair do mundo na ponta dos pés foi a escolha do filósofo francês contra as pretensões espetaculares de uma sociedade do controle. O curso terminado três anos antes de morrer mostra uma clara oposição à tentativa de transformar a sua pesquisa em um corpo de doutrinas. Apesar disso, seu pensamento corre o risco de ser cristalizado em alguns conceitos-chave: biopolítica, cuidado de si, governamentalidade, estética da existência.

Há 25 anos, no momento em que Michel Foucault concluía o curso "Le courage de la vérité", nenhum dos seus ouvintes no Collège de France imaginava que esse seria o último. Aidético, Foucault havia postergado o início do curso, começando em fevereiro, e não em janeiro, como de hábito, mas durante as lições nunca havia dado sinais de cansaço. Muitas vezes, havia até prolongado em uma dezena de minutos o horário previsto e justamente naqueles momentos havia tentado algo a mais com relação à reconstrução genealógica da noção grega de parrésia, o "falar-franco" que era o objeto do curso.

A reportagem é de Stefano Catucci, publicada no jornal Il Manifesto, 25-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia 29 de março de 1984, por exemplo, nos dez minutos suplementares, Foucault havia esboçado uma linha de pesquisa que leva da antiguidade aos nossos dias, redescobrindo a persistência da parrésia nos movimentos ascetas da Idade Média, na prática revolucionária do século XX, enfim, na arte moderna. A exigência artística de colocar a vida "a nu" era então apresentada por Foucault como a versão extrema de uma forma de vida que ia contra a história da filosofia ocidental, mas que os historiadores removeram: a de uma verdade cuja afirmação arrisca ferir os contemporâneos e se baseia, por isso, na coragem de desafiar suas consequências, sejam elas o isolamento, a incompreensão ou até a morte.

Só duas vezes, no curso, Foucault manifesta a necessidade de interromper sem seguir até o fim o texto escrito que havia preparado (reproduzido por Frédéric Gros no aparato crítico da edição publicada na França há alguns meses).

As últimas palavras

A primeira lamenta uma febre; a segunda, a falta de tempo: é a última lição, e são as últimas palavras pronunciadas por ele na sala 08 do edifício na Rue de l'Université: "Ainda tenho coisas a dizer sobre o quadro geral dessas análises. Mas é muito tarde. Então, obrigado". Palavras óbvias, banais, como sempre são ditas no fim de um curso, em nada comparáveis ao simbolismo enigmático da última frase de Sócrates, comentada longamente por Foucault naquelas semanas ("Críton, devemos um galo a Esculápio. Paga a dívida, não te esqueças"). Porém, palavras que a morte de Foucault enche, inevitavelmente, de significado: não houve mais tempo depois daquele momento, e isso que ele ainda tinha a dizer permaneceu em suspenso, indeterminado, tornando-se, às vezes, menos vago justamente a partir das leituras dos cursos publicados, mas paradoxalmente voltado a se cristalizar em torno a um núcleo doutrinário formado por uma série de conceitos-chave: biopolítica, cuidado de si, governamentalidade, estética da existência.

É difícil entender o quanto ele era consciente da sua doença. Na cronologia redigida por Daniel Defert para a edição francesa dos "Dits et écrits" (1994), lê-se que, nos últimos meses de 1983, ele tinha a suspeita de ter contraído Aids, mas que, no começo do ano novo, um robusto tratamento de antibióticos tinha restituído sua energia e seu bom humor, permitindo-lhe programar o início do curso e jogando fora os seus temores. Já em março, porém, frente às hesitações dos médicos, Foucault pareceu se render: não pedia um diagnóstico que, de resto, não lhe seria dado, e não tinha outra pergunta senão a que se referia ao tempo que lhe restava.

Alguns meses antes, ele havia começado a traduzir junto com Martin Ziegler um ensaio de Norbert Elias,"Die Einsamkeit des Sterbendes" ["Solidão dos Moribundos", editora Jorge Zahar, 2001], e a morte, o modo de enfrentá-la segundo as características de uma vida filosófica, também estaria no centro das suas lições, dando a elas, retrospectivamente, uma entonação testamentária. Alguns de seus amigos mais próximos não ousavam dirigir-lhe perguntas diretas, mas procuravam arrancar-lhe, talvez obliquamente, uma explicação.

Uma existência ética

Paul Veyne, muito próximo de Foucault, também como consultor para os seus estudos sobre o mundo antigo, perguntou-lhe se, como histórico da medicina, ele considerava que a Aids fosse verdadeiramente uma doença, ou não até uma lenda moralizadora. "Ela existe de verdade", respondeu Foucault, "não é uma lenda", e acrescentou ter enfrentado a fundo a questão. Porém, outras palavras não foram gastas por ele sobre o assunto, e o romance "Ao amigo que não me salvou a vida" [Editora Livros do Brasil, 1993] de Hervé Guibert, publicado em 1990, permite pensar que havia uma relação de pouca ou remota consciência com o mal que o afligia.

Paul Veyne se lembra ainda de ter tido um diálogo com ele naqueles meses a propósito das pesquisas de Philippe Ariès sobre as cerimônias fúnebres da Idade Média; "Prefiro", teria dito Foucault, "a tristeza doce da morte a qualquer tipo de cerimônia". Quase como se a única tarefa a ser realizada fosse o de dar sentido à morte, de torná-la bela, sem nenhum resto a ser consumado ritualmente.

No último curso, Foucault toca frequentemente o problema de uma beleza mais ligada à vida, à existência, e, consequentemente, também à morte, e não ao campo daquelas práticas tão caras ao Ocidente moderno e identificadas, desde o Renascimento em diante, com a obra de arte. Seria preciso escrever, dizia, uma história da existência como "objeto de elaboração e de percepção estética", problema delineado claramente no pensamento grego, mas sucessivamente recoberto por uma outra beleza, aquela que a modernidade atribuiu em via exclusiva "às coisas e às palavras".

Foucault não teve tempo para escrevê-la, nós não tivemos a possibilidade de espiar os seus traços no silêncio que acompanhou o seu fim. Em 1978, lembra Daniel Defert, Foucault havia evocado "o jogo do saber e do silêncio que o doente aceita para permanecer dono da sua relação secreta com a própria morte". Vinte e cinco anos depois da sua morte, o fato de ter mantido o segredo sobre essa relação é ainda razão de escândalo para muitos que teriam preferido vê-lo levantar-se publicamente em testemunho, justamente como Hervé Guibert faria alguns anos depois.

Porém, a exposição de si era uma técnica que Foucault tinha analisado nos textos e nas práticas do cristianismo primitivo, uma reprodução ritual do martírio muito distante da visão da existência que Foucault ligava à beleza, na qual não só a autonomia ética, mas também a conservação possessiva de uma margem de segredo, de opacidade ao olhar alheio, desempenham um papel fundamental.

Em uma série de conferências ainda inéditas, pronunciadas em 1981 na Universidade Católica de Louvain ("Mal faire, vrai dire"), Foucault havia encontrado no "De pudicitia", de Tertuliano, uma teorização completa daquele modo de se expor diante da comunidade que, em latim, se dizia "publicatio sui", uma maneira de teatralizar a penitência por meio de um ato de mortificação, a oferta ao público do próprio estatuto de pecador.

"Mata-se em si esse mundo de morte que não se queria deixar pecando", comenta Foucault. "Mostra-se, por isso, que se está: morto para o pecado e pronto para morrer para não pecar mais". Se essas observações são confrontadas com as que, anos antes, no curso intitulado "Os anormais" (1975), ele havia dedicado à questão do segredo, compreende-se a insensibilidade filosófica de Foucault, portanto não apenas pessoal ou idiossincrática, que manifesta a sua doença, independentemente do quanto ele estivesse ou quisesse estar consciente dela.

A invisibilidade, a morte, o silêncio se tornam, assim, a representação de um comportamento que não quer comerciar a sua singularidade como caso exemplar, não quer se colocar como "guia" intelectual ou moral, nem mesmo no ato da morte, como se o fato de sair do mundo na ponta dos pés, mais do que em pompa magna, fosse um modo para se eximir das pretensões espetaculares de uma sociedade do controle.

Na origem do modelo panóptico do poder – ele havia explicado em "Vigiar e punir" –, esteve, no século XVII, a experiência do palácio que Le Vaux havia construído em Versalhes para Luís XV, no qual os animais foram, pela primeira vez, encerrados em gaiolas colocadas ao redor de um salão do qual o rei podia observá-los. O poder moderno é um desenvolvimento desse modelo naturalista. "O Panopticon é um palácio" onde o animal "é substituído pelo homem"; o reagrupamento das espécies, "pela distribuição individual"; o rei, "pelo aparato de um poder furtivo”. Tornar-se invisível torna-se um princípio de resistência. No dia seguinte à sua morte, o jornal Le Monde revelou ser justamente Foucault o filósofo que, em 1980, havia exigido o anonimato como condição para a publicação de uma entrevista ("O filósofo mascarado").

De todos os modos, muito mais do que o silêncio com o qual ele envolveu os seus últimos dias, o que continua fazendo barulho, um quarto de século depois da sua morte, é o pensamento de Foucault, o rigor de uma atitude crítica transformado em forma de vida e conscientemente reivindicado como tal. O curso terminado três meses antes de morrer mostra com evidência a sua clara oposição à tentativa de transformar a sua pesquisa em um corpo de doutrinas.

Foucault, pelo contrário, retoma um projeto de filosofia crítica, dando-lhe um acento novo, devido à incorporação daquilo que ele chama de uma "atitude parresiástica". Se a partir da sua fundação em Sócrates e em Platão o discurso filosófico nunca coloca uma pergunta sobre a verdade sem se interrogar, ao mesmo tempo, sobre a ética e sobre a política, sobre o governo e sobre as práticas e subjetivação, então, afirma Foucault, podem-se distinguir na história atitudes filosóficas muito diversas entre si.

A alucinação de Paul Veyne

Há uma "atitude profética" que consiste em superar o limite do presente e em prometer a reconciliação que ocorrerá entre a verdade, a política e a ética. Há uma "sabedoria filosófica" que afirma a unidade fundamental desses três âmbitos, e, simetricamente, uma "atitude técnica" que tende, pelo contrário, a definir a sua separação irredutível: de um lado, as condições formais da verdade, da lógica; de outro, as melhores formas para o exercício do poder; de outro ainda, os princípios da conduta moral.

Diante dessas linhas de desenvolvimento da filosofia, a "atitude parresiástica" se distingue porque reconduz – "obstinadamente e sempre recomeçando do início" – o problema da verdade ao das suas "condições políticas" e ao da "diferenciação ética"; o problema do poder à "sua relação com a verdade e com o saber de um lado, e ao da diferenciação ética do outro"; a questão do sujeito moral ao "do discurso verdadeiro no qual tal sujeito se constitui e das relações de poder nas quais ele se forma".

É nesse nível, como nota Frédéric Gros, que Foucault dá a sua contribuição, e é por isso que, diante de quem lamenta a falta de uma "verdadeira" filosofia do conhecimento, ou de uma "verdadeira" moral no seu pensamento, pode-se responder, como faz Gros: "por sorte", porque a sua ideia é a de não concebê-las como âmbitos autônomos, justapostos, a serem exauridas de modo metódico e isolado, mas como nós de uma rede que se caracteriza pela reciprocidade das suas relações.

O dia em que Foucault morreu, Paul Veyne conta ter tido uma alucinação. As últimas notícias não eram boas, os médicos da Salpêtrière, onde ele estava internado, não sabiam mais o que fazer. A única consolação havia sido receber no hospital as primeiras cópias dos seus novos livros, "O uso dos prazeres" e "O cuidado de si". Na estrada, Veybe é ultrapassado em grande velocidade por um carro que ele não reconhece logo por aquilo que era: um carro fúnebre. Quem o dirigia era justamente Foucault: Veyne o vê dirigindo-lhe um sorriso logo antes de se dar conta de que estava sonhando de olhos abertos. A visão, no entanto, "tinha a engenhosidade alegórica dos sonhos próximos do momento do despertar". Foucault estava indo aonde todos iremos, mas a sua inteligência superava todos nós com a elegância de uma última ultrapassagem. Vinte e cinco anos depois, toda vez que o lemos, sempre temos a impressão de que ele ainda não deixou de nos superar em velocidade.

Passagens da vida e das obras de Foucault

Filósofo, arqueólogo dos saberes, ensaísta literário, professor no Collège de France, entre os grandes pensadores do século XX, Foucault foi o único que realizou o projeto histórico-genealógico idealizado por Nietzsche, que indicava que ainda faltava uma história da loucura, do crime e do sexo. Foucault, com efeito, estudou o desenvolvimento das prisões, dos hospitais, das escolas e de outras grandes organizações sociais. É sua a teorização que vê o modelo do Panopticon, idealizado por Jeremy Bentham, como aplicável à sociedade moderna.

A produção de Foucault pode ser dividida em dois períodos: o primeiro, relativo às teorias coletadas em "A História da Loucura na Idade Clássica", "O nascimento da clínica", "As palavras e as coisas" e "Arqueologia do saber". Nessas obras, Foucault propõe uma análise, que ele define como "arqueológica", dos processos de constituição e de formação do "saber" em um certo momento, em um certo lugar, por uma certa disciplina. Particularmente, Foucault analisa a formação do campo de estudos das "ciências humanas".

O segundo período da sua produção, ao invés, está diretamente interessado no exercício do poder e no seu funcionamento. Importantes são também os estudos de Foucault sobre a sexualidade e sobre o tema do conhecimento.

Fonte: Unisinos

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

''A violência deve ser tratada em sua complexidade''. Entrevista com Edgar Morin

Se violência gera violência, submeter um jovem infrator ao cárcere só fortalece seu lado agressivo. Esta é uma das várias declarações humanistas do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários. Enquanto o mundo se preocupa com os conflitos entre iranianos, é o pobre e esquecido povo do Sri Lanka que ele lembra em primeiro lugar quando perguntado sobre formas de violência que mais o preocupam.

A entrevista é de Lincoln Macário, da TV Brasil, 24-06-2009.

Quanto aos conflitos no Irã ele afirma que as informações vindas de lá devem ser sempre analisadas em seu contexto histórico, político e social.

Na entrevista ele explica sua Teoria da Complexidade. Autor de 30 livros, entre eles a obra em seis volumes O Método e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Morin avalia que o mundo ainda não compreendeu a importância do erro - um desses sete saberes - e revela que a educação mudou pouco nos últimos anos, pois permanece ainda muito negativa.

Prestes a completar 88 anos, Morin se empenha em popularizar os conceitos de Política da Civilização e Política de Humanidade. Admirador do Brasil, o professor concedeu a entrevista em português. Recém-chegado da França, ainda não tinha “tomado um banho de português” necessário para deixar suas frases mais “belas”. A mistura, porém, não tirou o caráter inovador de suas ideias.

Eis a entrevista.

O assunto que o traz a Brasília são os direitos humanos e, em especial, as formas de violência. Nesse tema, que tipo de violência mais o preocupa?

A mais preocupante é a violência que vem com as guerras, as perseguições, como é a violência que chegou ao Sri Lanka há poucas semanas. A população, aos milhões, está em situação de horror, de matança. Isso é o mais grave. Mas também são as violências urbanas, cotidianas, matrimoniais, muitos homens que golpeiam as mulheres, os pequenos, uma situação muito impressionante. Mas a coisa mais importante é quando se diz, vamos fazer violência para acabar com violência. Em condições gerais, violência, gera outra violência. É um ciclo que não se interrompe. A questão fundamental é como parar a violência. Fazer com que em um momento não exista mais violência. E há vários caminhos: são os caminhos da compreensão. Por exemplo: a violência juvenil. Ser jovem é um momento de transição. Se essa violência é respondida com a violência do cárcere, vai se produzir delinquentes mais fortes. Outra política de compreensão para a pessoa fazer sua transformação é um momento de magnanimidade, de perdoar a pessoa e interromper o ciclo de violência. Existem exemplos, limitados, como de Gandhi, que sem violência teve sucesso contra o império inglês. Há vários tipos de meios. Hoje podemos pensar em lutar contra todas as formas de violência, com os modos apropriados para cada forma de violência.

O senhor é conhecido no mundo inteiro, e muito estudado, também no Brasil, pela Teoria da Complexidade. Como se poderia resumi-la?

Falamos primeiro de violência. Na complexidade, não podemos reduzir uma pessoa a seu ato mais negativo. O filósofo Hegel disse: se uma pessoa é um criminoso, reduzir todas as demais características de sua personalidade ao crime é fácil. Entender, não reduzir a uma característica má uma pessoa que tem outras característica, isso é a complexidade. Uma pessoa humana tem várias características, é boa, má e muito mais. Devemos entender que a palavra latina complexus significa tecido. Em geral, o nosso modo de conhecer que vem da escola nos ensina a separar as coisas, e não religá-las. A complexidade significa religar. Por exemplo: um evento, um acontecimento, uma informação. Quando chega uma informação sobre o que ocorre no Irã, por exemplo, devemos entender o contexto político, histórico, social. A complexidade busca favorecer uma compreensão maior que a compreensão que vem de se isolar a coisas, colocar o contexto, todos os contextos em uma situação.

Em “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, o senhor fala da importância do erro. A humanidade já compreende e já aceita melhor o erro?

É uma coisa que disse Descartes, o problema de errar é não saber que se erra. Eu penso que é muito inteligente quando se sabe que se comete um erro e se esquece do erro. Penso que é muito importante conhecer as fontes do erro. De onde vem o erro.

Mas a humanidade vê melhor o erro do que há dez, vinte ano atrás?

Penso que não há progresso, o sistema de educação não mudou, é cada vez mais negativo. Os problemas globais fundamentais são cada vez mais fortes. Por isso penso que há a necessidade de reformar a educação. Com uma idéia melhor de como se faz o conhecimento e também compreensão humana dos outros. Penso que minha proposta será muito útil para o desenvolvimento nosso futuro.

Para aceitarmos a complexidade, é preciso uma reforma do pensamento e enxergar o mundo de outra maneira. O senhor acha que os meios de comunicação tradicionais essa reforma do pensamento ou é uma tarefa para a internet?

A internet hoje dá uma possibilidade de multiplicação de informação e comentários, que é muito útil, por que a vida de uma democracia é a pluralidade das opiniões, visões, sem a homogeneidade da imprensa. Não há muitas diferenças na grande imprensa. É muito útil a internet, o que não significa que não há coisas falsas que venham dessas redes. Mas é a educação que dá à pessoa condição de ver e confrontar o que vê na internet e na televisão. Penso que hoje a internet dá uma possibilidade de mudança muito grande, por exemplo, pela complexidade. No México, há um curso de complexidade da educação virtual, com 25 países.

O senhor tem se dedicado muito a pensar a política e tem feito a separação da política da civilização e da política da humanidade. Qual a diferença?

A política de civilização luta contra todos os efeitos negativos da civilização ocidental. É para restabelecer a solidariedade, humanizar a cidades, revitalizar os campos. Cada civilização tem suas virtudes, qualidades, suas diferenças, isso é verdade também para a civilização ocidental. Também para as civilizações de pequenos povoados, como índios da Amazônia, conhecimentos de plantas, animais, arte de viver, novos curativos, como os xamãs. A política de humanidade é combinar o melhor de cada civilização, fazer um simbiose no nível do planeta onde o melhor do mundo ocidental, que são os direitos humanos, direitos da mulher, a possibilidade do individualismo - mas não do egocentrismo - que combine outras civilizações, onde há mais solidariedade. A questão é lutar contra os defeitos das civilizações e pegar o que há de melhor. Porque nas civilizações tradicionais não há só coisas boas como solidariedade. Há também dogmatismo, autoridade demasiada dos mais velhos, do homem sobre a mulher. A ideia é tirar o melhor de cada, não idealizar a civilização tradicional ou a ocidental.

Fonte: Unisinos

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Metrô londrino vai divulgar doses diárias de filosofia



Turistas e moradores que utilizam o metrô de Londres estão escutando, desde ontem, frases célebres de pensadores como Jean-Paul Sartre, Mahatma Ghandi e Albert Einstein. O objetivo é fazer os passageiros lembrarem que o mais importante na vida não é chegar o quanto antes à estação de destino.

A ideia partiu do Serviço de Transportes londrino, que encarregou o vencedor do prêmio Turner de Arte Contemporânea Jeremy Deller a compilar as melhores reflexões filosóficas para "humanizar" o muitas vezes longo e agoniante trajeto de metrô. "A vida é mais do que aumentar a velocidade", de Mahatma Ghandi, ou "um tropeço previne a queda", do escritor britânico Thomas Fuller, são algumas das frases que os passageiros irão ouvir.

Em um primeiro momento, a ideia de Deller era substituir os tradicionais anúncios sobre a situação das linhas e substituí-los por essas "lições de filosofia". No entanto, ficou decidido que os dois tipos de mensagens serão alternados. Segundo a responsável pelo projeto, Sally Shaw, o objetivo é "melhorar a interação" entre os usuários e "fazer fluir os pensamentos que cada um tem durante a viagem".

Os próprios condutores dos trens escolherão as melhores frases, adequadas a cada tipo de situação. Assim, por exemplo, Deller afirmou que a frase de Jean-Paul Sartre "o inferno são os outros" não deve ser usada se o trem estiver parado em um túnel, momento em que seria bom pensar que "um tropeço previne a queda". "Espero que essa iniciativa introduza um pouco de senso de humor", disse o artista.


Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Lugo diz que é hora de repensar o celibato na Igreja

O presidente do Paraguai, o ex-bispo católico Fernando Lugo, que recentemente admitiu ter gerado um filho enquanto ainda estava na Igreja, disse que é hora "de repensar o celibato" sacerdotal.

Numa entrevista publicada neste domingo, 21, pelo jornal chileno "El Mercurio", o chefe de Estado, apontado como pai de outras duas crianças, afirmou que enfrenta as denúncias "com serenidade". Lugo disse ainda que Guillermo Armindo, o filho de 2 anos que teve com a jovem Viviana Castillo, "é um dom de Deus". Segundo o presidente, ele é pai de apenas "uma" criança. As outras duas paternidades que lhe atribuem são suposições, afirmou.

"É preciso assumir as consequências. Cada um é responsável por seus atos. Não podemos delegar responsabilidades de atos que nós cometemos, bons ou ruins, com erros ou sem erros. E fiz isso publicamente neste ano", acrescentou.

Lugo reiterou que "o celibato é imperfeito", mas ajuda os padres a "terem mais liberdade no exercício pastoral". Apesar de ter assegurado que o celibato "é um valor dentro da Igreja que precisa ser resgatado como um sinal do reino de Deus", o presidente paraguaio afirmou que "é hora de repensar o celibato na América Latina e no mundo".

"Acho que os últimos eventos deveriam chamar a Igreja Católica a uma serena reflexão sobre o valor do celibato dentro da Igreja", disse. Sobre sua experiência, Lugo afirmou que "há momentos na vida em que os afetos do amor não têm nem idade nem situação". "Às vezes, acontece de haver pessoas que fazem o coração bater mais rapidamente, e acho que tive situações assim", admitiu.

No entanto, "questões que te fazem perder a cabeça, se apaixonar e mudar totalmente de vida, talvez essas não tenham se apresentado durante minha vida sacerdotal", acrescentou o ex-bispo. "Se há algo que não queria deixar nunca é a Igreja Católca, na qual nasci", concluiu o presidente paraguaio.

Colaborador: Rodney Eloy

Fonte: Estadão

Sábado, 27 de Junho de 2009

Concepções escatológicas e vida social no Pentecostalismo Brasileiro

Esta breve reflexão pretende discutir como as formulações teológicas internalizadas pelos fiéis e pregadas pelos sacerdotes lhes dão uma idéia de sentido para a história e influenciam sua participação na política e na sociedade. Para tentar atingir tal intento, analisaremos o desenvolvimento da escatologia, a doutrina das últimas coisas, no pensamento cristão e como ela influenciou e foi influenciada pelas conjunturas sociais. Por fim, analisaremos as concepções escatológicas do pentecostalismo brasileiro, à luz das suas expressões de fé, e suas conseqüências na vida social e política de seus fiéis e lideranças.
Inicialmente, cabe-nos buscar na história algumas referências sobre a influência das diferentes concepções escatológicas na sociedade e na política. Com o crescimento da população evangélica, em especial do segmento pentecostal, e sua inserção na política nacional, parece simplista a afirmação de que o pré-milenismo, a postura de indiferença em relação à sociedade e a manipulação por parte das lideranças eclesiásticas (sem que se discuta os argumentos teológicos usados) são os únicos aspectos do pensar escatológico evangélico.As idas e vindas das concepções escatológicas. Assim como as vertentes dentro do cristianismo são várias, também as são as concepções sobre a doutrina das últimas coisas. Muitas das questões suscitadas por pensamentos teológicos divergentes acabaram em cismas, mortes e até guerras. Tais divergências não podem ser realmente compreendidas olhando-se apenas pela esfera teológica. As diversas interpretações e doutrinas estão repletas da influência das conjunturas políticas, sociais e econômicas nas quais surgiram. As diferentes leituras sobre a o retorno de Cristo podem, num primeiro momento, soar sutis ou insignificantes, mas tiveram conseqüências marcantes na história do cristianismo. Ousamos dizer que, ao tratar da escatologia, entramos na área da teologia cristã que toca de maneira mais profunda a relação do cristão com a sociedade, com a política e, principalmente, com a possibilidade de transformá-las.
Não pretendemos neste pequeno texto tratar de maneira ampla da evolução do pensamento escatológico cristão no decorrer da história. Tendo em vista o nosso objetivo final, que é buscar compreender as concepções escatológicas no pentecostalismo brasileiro e sua influência nas práticas sociais e políticas de seus fiéis, nos concentraremos em algumas das principais divergências e tensões que marcaram os debates sobre a escatologia na história do cristianismo. Tomando emprestadas algumas discussões levantadas por vários autores, dentre os quais destacamos Hans Schwarz (1995), Jürgen Moltmann (2002) e Karl Mannheim (1968), analisaremos as controvérsias escatológicas a partir de três debates: a tensão entre a promessa e o cumprimento; a ideologia e a utopia no pensamento escatológico e a ênfase na pessoa individual ou no aspecto coletivo de seu alcance. Logo após, buscaremos entender o lugar das concepções escatológicas pentecostais dentro desse debate.
Entre o milênio aguardado e o milênio cumprido. O primeiro ponto que gostaríamos de abordar é a tensão existente, na escatologia, entre a promessa e o cumprimento da parousia e entre o “já” e o “ainda não” da concretização das esperanças cristãs na história. Talvez seja esse o primeiro debate escatológico na história do cristianismo e que teve consideráveis conseqüências já nos primeiros passos da igreja cristã. No nascedouro do cristianismo a expectativa pelo retorno iminente de Cristo e o seu reinado junto a seus santos era quase unânime na igreja primitiva. Muito mais do que uma formulação teológica, essa esperança era um consolo para uma comunidade perseguida e minoritária frente a um poderoso império.
Cristo não retornou como esperado e, logo, um novo discurso se fez necessário. De acordo com Schwarz, “na vida posterior da Igreja, de modo gradual e muitas vezes imperceptível, a estrutura bipolar da escatologia – de consumação presente e completamente iminente – foi transformada em uma estrutura na qual o completamento iminente recebeu menos ênfase” (SCHWARZ, 1995, p.504). Porém a idéia da proximidade do fim não foi totalmente esquecida e irrompeu novamente na história do cristianismo em vários momentos. Paralelamente à diminuição do fervor entusiástico em torno do retorno de Cristo, podemos observar uma contínua institucionalização da igreja. E, a partir de Constantino, já passamos a encontrar um discurso escatológico bem diferente, onde se enxerga o reino milenar de Cristo na civilização cristã que crescia e se oficializava. A igreja, “à medida que se tornava cada vez mais estabelecida, não pedia por sua própria dissolução prematura” (SCHWARZ, 1995, p.505). Entra em cena o discurso da necessidade de continuar a evangelização e cristianização do mundo. O reino cristão avançava sem a necessidade do retorno de Cristo.
Vários outros exemplos históricos poderiam nos ajudar a ilustrar melhor, mas, no que tange ao nosso objeto de estudo, podemos tirar algumas observações que nos podem ser úteis. Primeiramente, vemos que a expectativa pelo retorno iminente e pelo reino milenar com Cristo na terra surge em momentos de perseguição, de mudanças e de incertezas. Dos cristãos lançados aos leões em Roma aos grupos que sofrem os impactos do processo de mundialização da economia e mudanças cada vez mais rápidas e radicais de valores morais, passando pelos seguidores dos ensinamentos de Joaquim de Fiori, a parousia, mais do que uma esperança teológica era uma necessidade e uma solução para a insegurança do mundo.
Por outro lado, quanto mais a igreja se institucionaliza, se aproxima do Estado e/ou assume uma posição majoritária em determinada sociedade, ela tende a enxergar o milênio e o progresso rumo ao fim escatológico em sua própria atuação terrena num milênio político-religioso. O cristianismo parece secularizar-se e assumir um aspecto muito mais político. “Somente no reino de Cristo, o espírito cristão abandona a forma de vida eclesial que lhe é própria e obtém a forma de vida política universal” (MOLTMANN, 2004, p.185). Esse tipo de mentalidade pode ser encontrado não apenas no cristianismo pós-Constantino, mas também em outros momentos da história da civilização ocidental. Por exemplo, nos Estados Unidos, a mentalidade do Manifest Destiny e toda a concepção de nação eleita e portadora de um modelo de sociedade under God que deve ser expandida por todo o mundo nos remete imediatamente a uma concepção de milênio em curso.
Resumindo, vemos que as concepções escatológicas sobre o retorno de Cristo e seu reinado milenar estão estreitamente ligadas a questões políticas e sociais. A distância do grupo em relação ao centro do poder político parece definir, em boa parte, sua concepção quanto ao retorno de Cristo. Os perseguidos, discriminados e alijados do jogo do poder, além de grupos em sociedades e épocas onde haja contestação de valores morais e incertezas quanto à segurança futura, tendem a aguardar ansiosamente pela segunda vinda de Cristo como um remédio para uma civilização decadente que persegue os fiéis e despreza os valores religiosos. Por outro lado, a igreja “vitoriosa”, majoritária, bem próxima ao poder e influente na esfera política vê em sua própria atuação o reino milenar em progresso. Não há necessidade de um retorno de Cristo em glória. Ele já está sendo glorificado pela atuação da cristandade no mundo através da igreja e dos líderes políticos cristãos. Movimentos milenaristas, dentro dessa lógica, se colocam contra o milênio da igreja e contestam seus valores. Por isso, normalmente são perseguidos.
Entre a ideologia e a utopia. Nesta parte, tomamos emprestadas algumas observações e concepções apresentadas por Karl Mannheim (1968) em seu livro Ideologia e Utopia que, cremos, nos darão boas indicações para compreender o impacto das concepções escatológicas na vida social e vice-versa. Para esse autor, tanto a ideologia quanto a utopia partem de idéias que transcendem o contexto social em que se encontram e apontam para uma nova forma de sociedade. Porém, enquanto as ideologias “jamais conseguem de facto a realização de seus conteúdos pretendidos” pois “seus significados, quando incorporados efetivamente à prática são, na maior parte dos casos, deformados”, as utopias “conseguem, através da contra-atividade, transformar a realidade histórica existente em outra realidade, mais de acordo com suas próprias concepções” (MANNHEIM, 1968, p.218-219).
Em confronto com a ordem vigente, a utopia, necessariamente, precisa romper com essa ordem para instalar uma nova. A ideologia, por outro lado, parece abrir uma espécie de “diálogo” e acaba por incorporar vários valores do status quo diferenciando-se das utopias ao se tornarem aceitáveis e adequadas à visão de mundo reinante. “Os representantes de uma ordem dada irão rotular de utópicas todas as concepções de existência que do seu ponto de vista jamais poderão, por princípio, se realizar” (MANNHEIM, 1968, p.220). Voltando a nosso exemplo anterior, a igreja “vitoriosa” e vinculada ao Estado não poderia permitir a existência de grupos no interior do cristianismo que fizessem apologia a uma subversão da ordem estabelecida da qual ela era um dos pilares.
Entre as principais formas de mentalidade utópica, Mannheim coloca a união entre o pensamento milenarista e as demandas das classes oprimidas. Dentro do pensamento escatológico cristão, por diversas vezes, encontramos um embate entre uma concepção escatológica de cunho providencialista, que tende a fazer coincidir a realidade histórica com os desígnios divinos levando a uma certa anuência com a situação social, e uma escatologia de perfil profético-milenarista de cunho mais popular e abraçado pelos grupos oprimidos pela ordem vigente. O que nos interessa mais diretamente nesse debate é, novamente, a relação que as concepções escatológicas estabelecem historicamente com as circunstâncias sociais nas quais estão inseridas. A visão do sentido da história e da razão das circunstâncias do presente coloca em posições opostas os diferentes grupos cristãos e até dentro do próprio grupo devido à sua colocação no quadro social e político. O discurso escatológico acaba por se moldar aos interesses e conceitos do grupo que o proclama.
Qual o alcance da escatologia: Individual ou coletivo? O último aspecto da evolução do pensamento escatológico que pretendemos tratar é a questão do alcance individual ou coletivo da escatologia. Deixamos claro que esse aspecto gira em torno da ênfase do discurso escatológico. Não podemos falar em algum tipo de pensamento escatológico que não tenha vestígio desses dois tipos de abordagem simultaneamente. Mas a ênfase em algum desses dois pólos pode levar a concepções escatológicas bem peculiares.
De acordo com Schwarz (1995), são duas as principais tendências escatológicas que enfatizam a dimensão individual da escatologia. A primeira, cuja influência no Brasil é muito restrita, atingindo, principalmente, os debates teológicos acadêmicos, é uma escatologia de cunho existencialista representada, entre outros, pelo renomado teólogo protestante Rudolph Bultmann. Essa abordagem busca demonstrar que a escatologia neotestamentária, principalmente nos escritos do Paulo e de João “deveria ser interpretada com categorias existenciais” (SCHWARZ, 1995, p.519). A escatologia deve estar aberta à possibilidade de se voltar para o presente, para o momento da decisão individual e não apenas voltada para os últimos dias.
A outra abordagem focalizada no indivíduo, que realmente interessa a nosso objeto de estudo, caracteriza-se por uma interpretação literalista do livro sagrado e por uma visão espiritualizada do mundo e das estruturas de poder. A história seria apenas um cumprimento das profecias bíblicas. Podemos dizer que o início desse tipo de abordagem surgiu na Inglaterra do século XVII e, segundo Moltmann, caracterizava-se como “um apocalipsismo fundamentalista e anti-modernista” (MOLTMANN, 2004, p.177). Esse tipo de análise ganhou força, principalmente, na segunda metade do século XX. Cremos que o surgimento do Estado de Israel, considerado como cumprimento de profecias bíblicas e a Guerra Fria, com a ameaça de uma catástrofe nuclear, fortaleceram esse tipo de abordagem, principalmente no fundamentalismo norte-americano.
Sobre a perspectiva pré-milenista e sobre as concepções escatológicas do fundamentalismo trataremos mais adiante. O que nos interessa agora é como esse tipo de abordagem enfatiza uma face individualizada da escatologia. Em Hal Lindsey (1976) e outros autores ligados a essa corrente, temos um mundo degradado e sem esperanças onde as forças espirituais malignas têm o controle do poder político e do poder religioso. O anúncio da iminência do fim dos tempos e a falta de esperança em algum progresso do mundo acabam por levar o cristão a se isolar e “parece faltar qualquer responsabilidade ou engajamento social além da esfera privada”. Nesta perspectiva, “o Estado e o governo (...) são percebidos apenas como a besta apocalíptica (...) Dessa forma, uma retirada para a esfera privada é acoplada a uma escatologia supramundana que não transforma nosso mundo, mas o destrói” (Schwarz, 1995, p.524). Se o mundo satanizado está fadado à destruição e a redenção se dará além da história, por uma intervenção direta divina, a salvação se torna tão somente individual.
Quando, porém, as ênfases se colocam nas dimensões coletivas, a escatologia apresenta uma nova roupagem e uma nova postura para com a sociedade. Esse tipo de abordagem caracteriza-se por um grande interesse pelos problemas contemporâneos. “As estruturas sociais ganham, assim, a atenção primária nessa tentativa de relacionar a mensagem bíblica com as questões da atualidade” (SCHWARZ, 1995, p.525). A questão da esperança escatológica e as implicações intramundanas dessa esperança são marcas dessa linha, principalmente em Jürgen Moltmann (2004). Outros referenciais desse tipo de abordagem são os autores da chamada Teologia da Libertação e da Teologia Negra.
As conseqüências da escatologia de ênfase individualizada podem ser bem retratadas dessa maneira: “Preocupa-se com a salvação da alma. Por isso a questão da transformação do mundo sempre lhe pareceu um desvio perigoso. A sua ética é individual e não social. Ela indica as marcas do comportamento do crente, adequado à sua condição de salvo” (ALVES, 2005, 257). Aliada a uma crença de que as profecias bíblicas sobre o final dos tempos estão se cumprindo no presente, tal concepção cria uma fé e uma visão da sociedade espiritualizada e maniqueísta levando o fiel ao escapismo.
De que pentecostais estamos falando? Ao se escrever sobre os evangélicos no Brasil, qualquer estudioso do assunto tem que assumir a ingrata tarefa de tentar buscar alguma referência sobre o que é, de fato, seu objeto de pesquisa. A diversidade de crenças e concepções teológicas marca o cristianismo brasileiro, especialmente no seu veio não-católico. Por isso, pretendemos definir nosso objeto de estudo a partir de algumas crenças gerais que lhes são peculiares e extrapolam os limites denominacionais. Para o observador do campo religioso brasileiro, principalmente de tradição protestante, fica evidente que os dados do censo não demonstram, por sua limitação de pesquisa quantitativa, a verdadeira dimensão do crescimento do pentecostalismo. Esse movimento não está restrito às denominações confessadamente pentecostais e neo-pentecostais. Suas concepções já são aceitas por grande parte, para não dizer a maioria, dos membros de outras igrejas, principalmente nas chamadas protestantes históricas.
Portanto, mesmo correndo o risco da generalização excessiva, tentaremos falar de um pentecostalismo que tem as seguintes características: Crê na contemporaneidade dos chamados “dons do espírito”, entre os quais a glossolalia e as curas divinas; apresentam marcas profundas do impacto das igrejas da “terceira onda pentecostal”, de acordo com a definição de Paul Freston (1994b) ou igrejas de religiosidade pós-moderna de acordo com Mendonça (2006); faz uma leitura literalista e fundamentalista dos escritos sagrados; e aceitam com naturalidade a inserção de suas igrejas na política eleitoral, inclusive com seus candidatos oficiais.
Sabemos que essa delimitação pode ser um tanto quanto arriscada, pois, por exemplo, deixa uma das maiores igrejas pentecostais do Brasil fora de seu alcance, a saber, a Congregação Cristã do Brasil, que, até hoje se mantém afastada da política eleitoral e dos meios de comunicação de massa. Todavia, cremos que essa delimitação feita acima engloba, não só a grande maioria dos pentecostais brasileiros, mas, ousamos afirmar, a maioria dos evangélicos do Brasil.
Qual o lugar das concepções pentecostais na história escatológica? No protestantismo brasileiro de origem missionária, a perspectiva escatológica preponderante foi, sem sombra de dúvida, a pré-milenista, a crença de que o reino milenar do Messias não se daria na história, “ao contrário, dada a decadência progressiva da humanidade, Cristo viria encerrar a história e reinar por mil anos (...) Todo o conservadorismo protestante e, particularmente, todos os fundamentalistas proclamam o pré-milenismo” (MENDONÇA, 2004, p. 70). Essa linha escatológica apresenta uma grande ênfase no fim do mundo, gerando, por parte de seus seguidores, uma atitude de relativização com relação aos bens terrenos e uma aparente apatia no que tange à atuação na sociedade e na participação política.
Porém, de acordo com Paul Freston (1994a), a partir das eleições de 1986 esse quadro começou a se alterar com uma nova postura adotada por algumas igrejas, entre as quais citamos a Assembléia de Deus, no sentido de eleger parlamentares ligados à sua denominação. Interessamo-nos em observar tal fenômeno não do ponto de vista meramente eleitoral ou do crescimento da participação de políticos evangélicos nas casas legislativas brasileiras, mas pelo viés do discurso teológico, mais precisamente escatológico, que busca legitimar essa mudança de postura dos pentecostais frente à política nacional. Parece claro que os interesses institucionais das igrejas e outras mudanças sociais têm papel fundamental nesse novo quadro, porém, a questão do discurso escatológico legitimador de tal mudança não pode ser ignorada.
A doutrina pré-milenista é, praticamente, a mesma da chegada dos missionários norte-americanos, mas o que explicaria uma mudança do apoliticismo radical para o engajamento eleitoral? Trabalha-se muito com a idéia de uma manipulação religiosa das lideranças eclesiásticas sobre os fiéis, criando “currais eleitorais” dentro das igrejas. Mas, mesmo pensando dessa forma, faz-se necessário analisarmos qual o discurso de fundo teológico que legitima tal atuação pelos fiéis e os convoca ao engajamento. Em termos teológicos de confissão de fé e doutrinação religiosa, o pré-milenismo ainda permanece como a explicação oficial sobre os acontecimentos dos últimos dias. Porém, sob a influência do fundamentalismo religioso, principalmente o de origem protestante norte-americana, de alguns aspectos da cultura brasileira e do “sucesso” das doutrinas e da fé “de resultados” dos grupos neo-pentecostais, a crença pré-milenista não tem apresentado mais as conseqüências esperadas de maneira uniforme. Cremos que uma compreensão sobre as concepções escatológicas dos grupos pentecostais e suas conseqüências na vida social e em sua participação na política brasileira passa pelos seguintes pontos:
1) Ao que parece, a ansiedade pelo retorno iminente de Cristo para livrá-los da incompreensão da sociedade secularizada, dos preconceitos religiosos dos quais são alvos, do caos social e da possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial de proporções catastróficas começa a perder lugar no discurso e na fé vivenciada. Tal mudança ainda pode ser considerada lenta e, às vezes, até imperceptível, mas, na nossa opinião, encontra-se em curso. Entra em cena e influencia quase que a totalidade da religiosidade cristã brasileira, ultrapassando, inclusive, as barreiras do pentecostalismo, as religiosidades que Antônio Gouvêa de Mendonça chama de pós-modernas que “pregam e agem fora de sistemas de verdades eternas e firmam-se na pura contingência das necessidades imediatas (MENDONÇA, 2006, p.91). Somando-se a isto o progressivo sucesso no desempenho eleitoral, o crescimento do número de evangélicos atestado pelos últimos censos e um discurso triunfalista da possibilidade de uma nação evangélica, onde se ouve recorrentemente a necessidade de “ganhar o Brasil para Jesus” e transformá-lo em uma “nação feliz que tem Deus por Senhor”, podemos pensar em um novo direcionamento no pensamento escatológico. Será que o pentecostalismo brasileiro não estaria experimentando, embora muito lentamente, uma mudança na ênfase do retorno imediato para uma ênfase no milênio da igreja? Passado um século de sua chegada ao Brasil o momento milenarista e “demonizador” do campo secular não estaria sendo substituído por uma luta pela hegemonia no campo religioso com conseqüências no terreno da política? Por enquanto ainda é difícil estabelecer parâmetros de comparação mais precisos com outros movimentos históricos, mas o novo discurso parece ter uma vinculação com o fundamentalismo norte-americano de origem protestante.
2) Dentro do fundamentalismo norte-americano, encontramos um movimento semelhante que teve início, aproximadamente, dez anos antes da ofensiva dos evangélicos na política eleitoral. Segundo Oro, “na escalada dos anos 75-80, o fundamentalismo faz a passagem do protesto sócio-cultural para o engajamento político. Líderes e fiéis fundamentalistas passam a dar sustentação às campanhas contra o aborto, a difusão dos contraceptivos (...)” (ORO, 1996, p. 97). Muito do discurso das lideranças evangélicas brasileiras parecem ecoar argumentos de grupos como a Moral Majority norte-americana. Não sabemos ainda qual o nível de similaridade os movimentos vão continuar apresentando. Outro ponto interessante a ser analisado, que constitui uma aparente diferença entre os dois movimentos, é a questão da mobilização civil em torno das lutas e protestos pelos valores morais que defendem. Diferentemente dos Estados Unidos, onde uma cultura de participação civil e associacionismo voluntário ainda matem certa força, no Brasil a mentalidade de delegar aos representantes eleitos esse papel parece ser a tônica. Poucos são os movimentos e protestos populares em torno de causas morais e sociais por parte dos evangélicos brasileiros. Sua atuação ainda é muito limitada à esfera religiosa somente. A falta dessa cultura participativa e consciência limitada de cidadania do brasileiro podem ser algumas das razões.
3) O discurso pentecostal e sua intervenção no universo social e político brasileiro parecem bem distantes da concepção de utopia de Mannheim, aproximando-se mais da sua idéia de ideologia. A possibilidade da “nação evangélica” não traz em seu bojo nenhum discurso de transformações profundas da sociedade. Segundo o próprio Mannheim, “uma pessoa pode-se orientar para objetos que sejam estranhos à realidade e que transcendam a existência real – e, não obstante, permanecer ainda ao nível da realização e na manutenção da ordem de coisas existentes” (MANNHEIM, 1968, p. 216). Ao abordar o ethos do pentecostalismo vemos seu ponto de contato mais visceral tanto com o protestantismo quanto com a tradição pré-milenista. Ainda permanece uma consciência de que é necessária a conversão do indivíduo para uma transformação da sociedade. Ainda ecoa o pensamento que Rubem Alves (2005) retratou: “se todos fossem crentes como eu o Brasil seria um país abençoado e próspero”. Nesse sentido, a citação a seguir de Mendonça nos mostra claramente ainda as permanências que vemos nas concepções escatológicas pentecostais, as quais não nos permitem falar de uma ruptura completa com seu pré-milenismo inicial: “Ao se estudar a inserção dos pentecostalismos na política não se pode deixar de levar em conta esse espírito, o espírito de pequenas comunidades voltadas para o interior de si mesmas condenando o mundo enquanto aguardam o milênio” (MENDONÇA, 2006, p. 108). Dessa forma, dentro do tema como o tratamos anteriormente, a ênfase da escatologia pentecostal ainda é, preponderantemente, individualista e a dimensão coletiva e transformadora da sociedade só é vista através da possibilidade da soma das conversões individuais.
4) O último ponto que gostaríamos de tratar é o da espiritualização da política e da vida social. A disseminação do conceito de “Batalha Espiritual” e sua aplicabilidade nas estruturas de poder e nos conflitos sociais que se fortaleceu no Brasil a partir dos anos 80, de maneira quase simultânea à mudança de postura dos evangélicos em relação à política eleitoral, estão muito presentes no discurso pentecostal atual. Grande parte dos best-sellers da literatura evangélica trata desse tema. Atualmente é um tema muito mais em voga do que o Apocalipse. Os anjos e demônios passam a atuar nas estruturas profanas do governo e da sociedade civil. Principados e potestades demoníacas influenciam os rumos da política nacional: daí a causa das injustiças, da pobreza e da decadência moral. Cabe ao crente lutar pela causa da Fé nesse terreno. E essa luta não mais se limita a jejuns e orações. A presença de “homens de Deus” no território do inimigo mostra o avanço do “povo de Deus”. A luta escatológica final parece ter sido trazida para o presente. Se no pré-milenismo clássico a consciência da iniqüidade do mundo levava ao isolacionismo, na escatologia presente da Batalha Espiritual, a consciência do mal na sociedade e na política leva ao engajamento. O objetivo seria “marcar posição” ou vencer o inimigo? Muitos podem considerar desta forma: marcar posição agora e derrotar o inimigo no além da história. Mas, fica aqui o questionamento: Será que o supracitado discurso triunfalista e a possibilidade de “ganhar o Brasil para Jesus” não parecem supor uma possibilidade de vitória dentro da história?
Considerações finais. Ao chegar ao final deste trabalho esperamos ter aberto para o leitor uma nova possibilidade de se compreender a participação do evangélico-pentecostal na sociedade brasileira. A reflexão sobre a experiência histórica do cristianismo no decorrer dos séculos nos mostra como as concepções escatológicas desempenharam um papel importantíssimo na auto-compreensão que os diversos grupos cristãos tinham de seu papel social. Procuramos fugir de análises unilaterais e deterministas. Não se pode compreender a construção da teologia apenas como uma questão de fé, imune às conjunturas sociais e políticas, mas também não podemos ignorar o poder que os conceitos de fé, internalizados pelo indivíduo ou pelo grupo, têm de criar uma forma sui generis de participação social e política.
No caso do estudo da participação dos grupos pentecostais na sociedade e política brasileira, tentamos fugir do perigo de uma análise determinista e, de certa forma, desatualizada de suas concepções escatológicas. Será que, fugindo de conceitos teológicos fechados, a experiência e as transformações do pentecostalismo brasileiro não o encaminham para uma nova forma de pensar e viver a escatologia? A nosso ver, principalmente após sua inserção na política nacional, parece simplista a afirmação de que o pré-milenismo, a postura de indiferença em relação à sociedade e a manipulação por parte das lideranças eclesiásticas (sem que se discuta os fundamentos teológicos usados, sejam eles coerentes ou não) consigam abarcar todas as complexidades do pensar escatológico evangélico e pentecostal. Cremos que o estudo das concepções escatológicas dos diferentes grupos cristãos que compõem o riquíssimo leque religioso do Brasil pode nos abrir as portas de uma melhor compreensão das suas peculiaridades e de seu modo de perceber o mundo, a sociedade e a história.
Daniel Rocha, historiador - mestrando em Ciências da Religião pela PUC-MG
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem. Religião e Repressão. São Paulo: Ed. Loyola, 2005.
FRESTON, Paul. Evangélicos na política brasileira: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Ed. Encontrão, 1994a.
FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo Brasileiro. In: ANTONIAZZI, Alberto, et al. Nem anjos nem demônios. Petrópolis: Vozes, 1994b.
LINDSEY, Hal. A agonia do grande planeta terra. São Paulo: Mundo Cristão, 1976.
MANNHEIM, Karl. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Protestantismo brasileiro, uma breve interpretação histórica. In: SOUZA, Beatriz Muniz de; MARTINO, Luís Mauro Sá (Orgs.). Sociologia da Religião e Mudança Social: Católicos, protestantes e novos movimentos religiosos no Brasil. São Paulo: Paulus, 2004.
MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Evangélicos e pentecostais: Um campo religioso em ebulição. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (Orgs.). As religiões no Brasil: Continuidades e Rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006.
MOLTMANN, Jürgen. A Vinda de Deus: Escatologia Cristã. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002.
ORO, Ivo Pedro. O Outro é o Demônio: Uma análise sociológica do fundamentalismo. São Paulo: Paulus, 1996.
SCHWARZ, Hans. Escatologia Cristã. In: BRAATEN, Carl E., JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. São Leopoldo: Sinodal, 1995.

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