10 de novembro de 2009

A educação pelo sangue e pela humilhação

A Uniban decidiu: expulsou a menina agredida pela turba de mais de 700 alunos. No momento em que escrevo talvez isso que digo ainda não esteja nos jornais que você, leitor, consulta. Mas estará. O fato agora ultrapassa, em parte, a minha primeira análise, feita em vídeo [aqui], que ressaltou aspectos do comportamento fascista do ambiente da Uniban. O ocorrido, agora, reclama por uma intervenção da voz oficial do Ministério da Educação.

Volto ao primeiro campo, o da análise psicossocial para, em seguida, comentar o novo ingrediente.

Contardo Caligaris, na Folha de S. Paulo, tenta explicar o episódio da Uniban por meio da sua noção de “machismo”. Calligaris vê na manifestação agressiva dos estudantes a tentativa de punir o “desejo da mulher”. A regra da turba seria “a mulher não pode desejar”. Como a moça apareceu na aula com “uniforme de balada” e, portanto, ao menos visualmente, mostrou estar no campo do desejo e do ser desejada, foi punida. Esse tipo de análise, a meu ver, pode dar margem antes para o moralismo que para a psicologia social. Sei que não é essa a intenção de Calligaris, mas, não raro, os puritanos de plantão e os pouco experientes com a vida podem entender que aquele homem que, privadamente, chama a mulher de puta, durante o ato sexual – com o consentimento dela – tem o mesmo perfil de um agressor, e isto está longe da verdade. Prefiro ver o episódio como no campo de algo maior e mais complexo que aquilo que podemos entender por “machismo”.

Como disse em vídeo, vejo aquela manifestação como a incapacidade de adaptação dos jovens a ambientes novos que exigem deles uma relação sociável com o novo, com o diferente e, é claro, no caso, com o provocante. Aqueles jovens agiriam de modo semelhante diante de qualquer outro comportamento que eles identificassem como “anômalo”. Dado o primeiro passo, por iniciativa de uma liderança – “o chefe” –, e qualquer outro elemento “anormal” seria o foco da atenção e da agressão. Fato semelhante ocorreu em outra faculdade, esses dias, contra uma moça que foi chamada de “CDF”. O que desencadeou a turba foram os livros dela terem caído, coisa que não acontecia com os outros alunos que, enfim, não levavam livros na tal faculdade de Direito (!)

Considero a atitude da turba da Uniban como um comportamento mais próximo do comportamento fascista [aqui] do que simplesmente daquilo que se pode notar como “machismo”.

Mas, até aí, estávamos no comentário do episódio da agressão. Agora, há um segundo episódio. A atitude da Uniban não foi a de investigar quem agrediu a moça. Muito menos foi a de oferecer proteção para ela voltar às aulas. Menos ainda pagar os serviços de apoio psicológico profissional que, é certo, ela tem direito. A atitude foi a de expulsar a moça da escola! O argumento, pasmem, é vergonhoso. Sinto asco ao tentar escrevê-lo, mas é este: a moça teria provocado os estudantes, pois percorreu um caminho “maior do que o necessário” para chegar ao local de sua aula. O advogado da Reitoria da Uniban, sem corar, disse que a aluna “sempre gostou de provocar os meninos. O problema não era a roupa, a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar” (declaração para a Imprensa).

O caso, agora, extrapola o campo das análises em psicologia social. Sai até mesmo do âmbito da filosofia da educação, pelo qual eu também o abordei no vídeo, ao lembrar as facilidades com que a Uniban se coloca no mercado, acolhendo pessoas que não poderiam ser alunos universitários em lugar nenhum. O assunto, agora, é do âmbito da organização do ensino no Brasil. O que a Uniban fez fere elementos tomados como corriqueiros e aceitos em nosso ethos educacional.

Não adianta a Uniban evocar a “autonomia universitária”. Esta não pode passar por cima dos costumes do povo, do nosso ethos que, inclusive, se apresenta em forma de lei para a própria Uniban, para que ela possa ser considerada ou não uma instituição de ensino. A transformação da vítima em culpada, que o ato de expulsão sela, é uma completa inversão de tudo que somos e acreditamos. Mesmo os mais conservadores, os que pudessem criar qualquer senão à garota de mini-saia, ainda assim deveriam entender que a agressão aconteceu. Em uma instituição de ensino, a agressão não pode deixar de ser repreendida. Aliás, a agressão teria de ter sido interrompida pela direção da Uniban no momento em que ocorria. Isso só foi feito muito mais tarde, e nem foi por iniciativa mesmo dos responsáveis pela escola. Ora, se a Uniban, agora, inocenta os agressores e, com isso, dá aval para tais atos de selvageria, ela se transforma automaticamente em um clube fechado de instrução ao fascismo. Um clube de (de)formação pela violência, pelo sangue.

Até mesmo nas academias militares em que a preparação para a guerra estava associada a exercícios de humilhação, esta prática não é mais permitida. Em uma escola comum, então, qualquer ato de humilhação coletivo, em que um mais fraco é posto covardemente na parede, precisa ser condenado, reprimido, extirpado. A Universidade não é um lugar de instrução de adulto, ela é um lugar de educação de jovens. Ela ainda é um lugar de formação individual. E a formação profissional não está, pelas técnicas, acima de procedimentos comuns humanos, que esperamos que todos os alunos adquiram em conjunto com as técnicas, ao passar por uma escola superior. Dou um exemplo, abaixo, sobre como que técnica profissional e sentimentos morais não se dissociam.

Você é atropelada e aparece o socorro. Entra no hospital de maca, com a perna quebrada e sangrando. Como que você pode colocar sua perna, com o vestido puxado, para um médico formado em uma escola como a Uniban? Ora, você sabe que ao ver um par de coxas numa minissaia, este médico pode ser aquele que, em situações assim, começou a gritar “puta, puta, puta”. Pode não ser um daqueles 700, mas foi educado na Uniban, um lugar em que tal atitude é regra, é avalizada pela direção. Você está ali, na maca, o que passa pela sua cabeça? O que ele vai fazer com a sua perna? Vai cuidar ou vai agredir, mesmo que de uma forma não percebida conscientemente por ele próprio? Pense nesta outra situação: você entra em um consultório de dentista e na parede está o diploma da Uniban. Você senta na cadeira e o dentista olha para o seu decote. Em seguida, ele pega aqueles instrumentos pouco amigáveis para colocar na sua boca. Você sabe perfeitamente que ele está pensando “ah, mostrando as tetas heim sua puta? Vou punir você vagabunda”. E ele põe, então, os instrumentos na sua boca. E aí, você continua o tratamento?

Veja que na minha observação, não há moralismo. A frase que o tal dentista, nesta minha ficção, está pensando é “ah, mostrando as tetas heim sua puta? Vou punir você vagabunda”. Esta frase, do modo que eu a coloco, não está no registro de um comportamento que diria “eu namoro com essa mulher ousada, essa gostosa”. Não! Não estou falando do homem que observa a mulher e que gosta, e que a deseja, mas que sabe que se ela se apresentar com aquele decote para outros homens, ela não pode ser punida por isso. Estou falando do selvagem da Uniban que, vendo o diferente, quer eliminá-lo do local, porque o diferente mostra a ele a sua incapacidade (inclusive às vezes, sexual), a sua origem menor, sua pequenez no ambiente novo, no caso, o ambiente universitário para o qual ele não estava preparado.

O Ministro da Educação atual, Fernando Haddad, é jovem professor da Universidade de São Paulo. Conheci-o aqui em minha casa. Sei que ele leu os teóricos da Escola de Frankfurt e que pode muito bem entender esses meus argumentos. Além disso, mesmo que não fosse quem é, seria alguém que, por obrigação, teria de conhecer a legislação educacional. O que a Uniban fez não pode tem como ser permitido. O caso não é um mero caso de “disciplina interna”. Extrapolou isso. Temos de ouvir uma palavra do MEC de condenação firma à Uniban.

© Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo http://twitter.com/ghiraldelli

São Paulo, 07 de novembro de 2009

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo e escritor. Doutor e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Doutor e mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo (PUC-SP). Tirou seu “pós-doc” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sua livre docência pela Unesp, onde também foi o professor titular concursado. Atualmente, Paulo Ghiraldelli Jr. dirige o Centro de Estudos em Filosofia Americana.

Um comentário:

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Roberson,

Gostei de ler, de acompanhar esse seu raciocínio. De fato, várias vezes acompanho noticiários e fico dividida perante as medidas que se sucedem.
Beijos,
Ana Lúcia.