2 de dezembro de 2010

A pedagogia do Advento

Domingos Zamagna *
Em Minas Gerais tive um professor alemão que costumava pilheriar com os alunos dizendo que "a História é a sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente". Mas depois ele nos falava, com palavras adequadas para adolescentes, da História como processo, animado por uma espécie de poder secreto, um espírito que se desvela no tempo e no espaço. A história, com suas chances e fracassos, ambigüidades e conquistas. Falava com a experiência de duas guerras mundiais, uma longa fuga pela Sibéria, anos no Japão e nos Estados Unidos, e muito tempo de magistério no Brasil, de coração transbordante de fé e amor. Saudades desses velhos mestres que nos enriqueciam cultural e moralmente, sem jamais envenenar as inteligências dos jovens com ideologias tolas e preconceitos!
O reinício do Ano Litúrgico, com o primeiro domingo do Advento e a preparação imediata para o Natal, nos proporciona a reflexão sobre o mistério da História e da sua salvação. A Bíblia entende a História como uma sucessão de gerações. E cada geração dá a sua contribuição para, guiadas todas pela Providência divina, descobrirem o desígnio de Deus. Um desígnio sempre "novo", mas um novo que não se reduz às "novidades", que estas podem converter-se num retumbante, superado e estéril arcaísmo. Um novo que pode transformar, e habitar permanentemente, até mesmo no que alguns chamam de banalidade do quotidiano. Como ensinou São João, a Palavra da Vida, vida eterna, se manifestou e se deixou ouvir, ver, contemplar e apalpar (cf. 1Jo 1,1), para que pudéssemos ter comunhão com ela, o que faz de nós homens e mulheres de "alegria completa".
O que importa é saber que Deus -eterno em si mesmo- quis se relacionar com a nossa raça, e a divinizou, na forte expressão dos Padres Gregos. Tocou a fragilidade do tempo, a precariedade do espaço e a ambigüidade da história: enviando-nos o seu Filho para, pelo mistério da Encarnação, ser um de nós, ele deu dimensão de santidade a todas as realidades humanas. Noutras palavras: deu-nos a possibilidade de nos subtrair à sedução mítica e idolátrica do quotidiano, que nos impedia de ampliar nossos horizontes. A graça que nos vem do Redentor nos projeta para além dos limites espaciais, temporais e históricos: "novos céus e novas terras", como profetizou Isaías.
O ano litúrgico da Igreja, que está se iniciando, é uma maravilhosa e atualíssima pedagogia: dia após dia, ciclo após ciclo, somos encaminhados -a história da Igreja é uma caminhada (hodós)- para o esperançoso amadurecimento da fé, pelo aumento da compaixão, da solidariedade (agápe) e o gozo da paz.

* Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo
Fonte:Adital

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