15 de março de 2011

Hitler, Wittgenstein e os tsunamis

Ultimamente tenho andado com Hitler na cabeça. Já assisti “A Queda” 9 vezes - o filme que conta os dias finais do ditador nazista - e na semana passada apresentei “Arquitetura da Destruição” para meus alunos, um documentário extremamente minucioso, que sustenta a tese de que o nazismo era, mais do que um movimento político, um movimento estético.

Hitler e Nietzsche acreditavam que a humanidade só atingiu sua plena potencialidade e beleza na antiguidade. Por isso os símbolos, as saudações, os ritos e a prática dos nazistas de eliminar e escravizar pessoas estavam todos presentes no Império Romano.

Dizem que o filósofo Ludwig Wittgenstein foi colega de classe de Hitler (Imagine sentar-se ao lado do Hitler na sexta série!). Mas é incrível como, da mesma escola, saíram pessoas tão diferentes. Enquanto Hitler achava que valia pagar o estigma de eliminar os judeus, os ciganos, os mestiços... Wittgenstein, em um dos seus aforismos, escreveu: “-A dor de uma pessoa é a dor da humanidade inteira.”

Dependendo do ponto de vista, isso colocava por terra aquela estória de que a Segunda Guerra Mundial teria sido a pior tragédia humana porque matou mais de 50 milhões de pessoas - e então a Guerra das Malvinas, por exemplo, teria sido “menos pior”, porque matou menos gente. Para o filósofo, o preço da vida humana era tão caro que a morte e a dor de uma só pessoa já significavam a morte e a dor da humanidade inteira.

Sexta-feira eu cheguei ao trabalho e li a notícia: “Terremoto no Japão mata 32”. Logo pensei: “Menos mal, o Japão já passou por terremotos muito piores, quando morreram milhares de pessoas. Não é uma tragédia tão grande, afinal”. Mas à tarde vi as imagens do tsunami e soube que ele fora provocado pelo terremoto. E me dei conta de que muito mais gente morreu naquele momento.

Depois, em uma festinha musical na casa de um amigo, lembrei do tsunami. “Como eu posso estar feliz se, neste momento, tantas famílias estão desesperadas no Japão?” Parei de pensar no assunto, porque nessas horas é melhor cultivar o que se tem de melhor: os amigos, a música e a tranquilidade possível.

O sonho de Hitler era exatamente este: atingir a tranquilidade para o povo alemão. O resto poderia explodir. Nós brasileiros, por exemplo, seríamos dominados pelos argentinos - que eram, até por uma questão de composição étnica e conveniência, muito mais adaptáveis à ideologia nazista.

Acredito que não é preciso nem acreditar em tudo o que Wittgenstein dizia, para crer que ele tinha um pensamento mais evoluído do que o de Hitler. Para entendermos o mundo como um lugar melhor (ou pelo menos possível de ser melhorado), Wittgenstein tem que estar certo e Hitler, errado. É óbvio.

Se essa obviedade filosófica (e talvez ética) a respeito do valor da vida humana não fosse tão óbvia assim, se a guerra fosse inevitável para a evolução dos países, se os fins justificassem mesmo os meios de se conseguir o que se quer, estaria entendido o porquê de não haver cura para tantas doenças que não interessam às indústrias farmacêuticas, de não erradicarem a fome, o analfabetismo, a devastação ambiental e os outros problemas que mancham profundamente a história da humanidade - e mancham de um modo que se torna mais dramático ainda, quando sabemos que há solução para todos eles.

A solução desses problemas, porém, não envolve os interesses dos que detêm a tecnologia que já foi desenvolvida para isso. Para que mantenhamos a esperança em um futuro realmente melhor, nem precisamos gostar de Wittgenstein. Mas pelo menos acreditemos que a dor de uma pessoa é a dor da humanidade inteira. Isso tem o poder de manter uma certa leveza nesta existência tão pesada, que nos abate com as soluções de Hitler, os tsunamis e a consciência da morte.

O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião

Colaborador: Rodney Eloy

Um comentário:

Guilherme R. Fauque disse...

Ótima reflexão!!! Gostei muito!