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18 de setembro de 2009

A moda é ser feliz

Rogério Voltan

Se a casa tem papel fundamental na alegria de viver, qual é o sentido de buscar na vitrine da loja o pacote completo do contentamento? Mais sensato é recorrer à alma do lar, e de quem vive nele, para decorá-lo com legitimidade. Em A felicidade mora aqui, seminário que Casa e Jardim realiza no dia 30 de setembro, no hotel Grand Hyatt, em São Paulo, convidados nacionais e internacionais se reúnem em torno dos temas A casa em transformação e Decorar com liberdade. O evento é voltado para arquitetos, decoradores, designers e paisagistas.

Às vezes teimamos em levar para casa o sonho que se vende na loja – seja o móvel, o objeto decorativo, a cor da parede, a TV para lá de moderna ou um determinado piso. No entanto, devidamente instaladas, as aquisições podem não fazer sentido nenhum. A sensação é estranha, de que algo não vai bem. Inconscientemente, nos sentimos mal em um lugar que deveria nos atrair e revigorar nosso humor. Pois é. Adotar o que está na moda simplesmente porque é moda ou a tendência do momento sem que caia bem ao seu estilo é quase atropelar a personalidade dos moradores. Por fim, nos sentimos mais em casa fora dela do que entre suas paredes.

Mais do que local de abrigo e proteção, a casa é nossa terceira pele, nossa esfera de reconhecimento. Como diz o filósofo suíço-britânico Alain de Botton, em seu livro A arquiteturada felicidade, “um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manter”. Botton é um dos estudiosos que buscam mudar o foco do assunto para o indivíduo, sem deixar de lado a estética ou a funcionalidade. Ele está interessado em mostrar os valores, sonhos e memórias que dificilmente estão impressos nos catálogos de decoração.

“Um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manter”
Alain de Botton, em A arquitetura da felicidade

Ninguém está ofendendo nenhuma tendência, é claro. Afinal, a maioria delas sai de estudos importantes para facilitar a rotina, levando em conta o estilo de vida de cada um. Mas fazer uma triagem que tenha a ver comas próprias verdades é essencial para morar bem. Quer um exemplo? Quando se espalhou pelo mundo a ideia americana demorar em loft, muita gente adotou esse estilo de vida. No entanto, a derrubada de paredes se choca como desejo de privacidade. “Os moradores de uma casa têm necessidades diferentes e se refugiam em cantos distintos. A privacidade garante que cada um expresse seu desejo”, diz a psicóloga capixaba Angelita Corrêa Scárdua, mestre em psicologia social e especialista em neurociências e comportamento. Mesmo que haja na casa um morador único, a banalização visual dos ambientes pode se tornar um fator estressante, cansativo.

Falta de funcionalidade é outro aspecto que irrita. “A estética precisa ser funcional”, frisa Angelita, citando cubas de lavabo muito rasas, outra tendência amplamente utilizada nos últimos tempos. “Algumas aplicações ficam só de enfeite, as pessoas acabam deixando-as de lado. E gera estresse um investimento inutilizado. ” Também irrita e incomoda ver reparos por fazer, segundo Alain de de Botton: a falta de iniciativa se escancara.

A mesma sensação estática se aplica a uma casa que pouco se renova, que tem uma decoração definitiva. “É preciso criar espaço para o novo entrar e estimular o cérebro. Um lugar onde nada muda há anos sinaliza uma espécie de inércia emocional”, aponta Angelita Scárdua. Ao mesmo tempo, incluir muita tecnologia no espaço doméstico também pode estagnar a atividade dos moradores. Equipamentos eletrônicos em excesso no quarto, por exemplo, interferem na energia entre essas quatro paredes. “Claro que as tecnologias são necessárias, mas pelo menos o quarto, que é um lugar de descanso, deve evitar concentrá-las”, detalha a bioarquiteta capixaba Kelly Guariento Marques.

“A casa é o lugar onde se abrigam vontades, desejos, sonhos. Por isso não pode ser um produto descartável”
Maria Elvira Rofete, arquiteta

Facilidades como essas tornam mais fácil a correria da rotina. No entanto, escanteiam a profundidade de uma moradia. “As pessoas acabam passando pela casa. Vivem correndo e deixam de lado os sentidos, a percepção desse lugar. Por isso adotam a moda. Falta profundidade em morar, falta alma nos ambientes”, observa a designer de interiores paulistana Maristela Gorayeb. Essa história ainda pode ser revertida, se forem privilegiados aspectos emocionais como memórias de família, boas histórias, aromas, sons, texturas e suavidade visual (simplicidade, não monotonia). Assim, a casa se torna verdadeiramente revigorante.

Afinal de contas, a moda é o que queremos que os outros percebam, como diz a arquiteta, urbanista e professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Maria Elvira Rofete. “Já o estilo, dentro de casa, é o que somos. E não o sonho que se vende na loja ou na mostra de decoração.”

Colaboração: Rodney Eloy

Fonte: Revista Casa e Jardim

22 de agosto de 2009

Alain de Botton escreve no aeroporto de Heathrow



Em princípio parece o lugar menos indicado para a reflexão, mas o filósofo suíço Alain de Botton decidiu buscar inspiração no tráfego incessante de um aeroporto internacional para escrever o próximo livro.

De Botton, autor de «A arte de viajar» e «Como Proust pode mudar tua vida», tornou-se residente do aeroporto britânico de Heathrow, o de maior tráfego na Europa, segundo a comunicação social britânica.


O escritor, de 39 anos, afirma que o gestor aeroportuário BAA, propriedade do grupo español Ferrovial, lhe deu completa liberdade editorial e de acesso a todas as zonas do aeroporto para escrever um livro que se intitulará «Uma semana no aeroporto: Diário de Heathrow».


«Uma das primeiras coisas que disse quando me fizeram a oferta era que queria liberdade total para dizer o que quisesse… por exemplo, se vejo sair uma barata de um dos restaurantes», explica o autor de «A arquitectura da felicidade».

Colaborador especial:Rodney Eloy

Fonte:Diariodigital

8 de fevereiro de 2009

Você tem fome de quê?

Para o filósofo suíço Alain de Botton, o pior tipo de ambição é o baseado no que os outros pensam. O segredo do sucesso é um só: saber o que você quer

Por José Eduardo Costa

A reportagem de capa da edição de março da VOCÊ S/A tem como tema a ambição. Para falar sobre esse assunto a revista foi ouvir um dos principais pensadores da atualidade, o filósofo suíço, Alain de Botton, de 37 anos. Alain ficou famoso lá fora ao trazer a reflexão de filósofos, artistas e pensadores antigos para os problemas cotidianos. No Brasil, ele tem três livros publicados (de um total de sete já escritos) pela Editora Rocco: As Consolações da Filosofia, Como Proust Pode Mudar Sua Vida e mais recentemente Desejo de Status. De Londres, onde vive, Alain deu a seguinte entrevista, por email, para a VOCÊ S/A. Na revista, você confere a íntegra deste bate-papo.

O desejo por status é o mesmo que ambição?

Não. A ambição diz respeito às nossas próprias vontades: ter mais dinheiro, ser mais bonito ou construir uma carreira excepcional. Por exemplo, um executivo cuja função é reestruturar uma empresa faz seu trabalho guiado pelo desejo pessoal de colocar suas competências à prova, sem necessariamente se importar com o que as pessoas vão achar disso. A busca por status é uma coisa diferente, pois tem a ver com aquele tipo de ambição orientada pela opinião dos outros.

Algumas pesquisas que medem o clima de trabalho nas empresas mostra que freqüentemente as pessoas se sentem angustiadas ou ansiosas com relação a carreira. Isso tem a ver também com a ambição de cada um?

Eu acredito que sim. A competição e a ansiedade são inerentes ao capitalismo. A essência do negócio é a competição e não há competição sem ansiedade. Nos países em que a economia é ruim as pessoas não são tão ansiosas, pois a percepção é de que não há perspectivas de crescimento. Por exemplo, os trabalhadores na França são bem menos ansiosos do que os empregados americanos. Na França, eles não estão tão preocupados em perder o emprego e nem em subir na carreira e ganhar mais dinheiro. Nos Estados Unidos, há mais oportunidades e isso gera muita expectativa nas pessoas que sonham em melhorar de vida.

Ser mais ou menos ambicioso, então, diz respeito a quantidade de oportunidades percebidas?

Minha tese é que a ambição é maior onde as oportunidades são maiores. Quando as pessoas sentem que podem melhorar de vida elas se tornam muito ambiciosas. Por isso, nos Estados Unidos as pessoas sonham em crescer, ser reconhecidas e ter mais dinheiro. É o tal do sonho americano. Lá, elas vêem chances reais de ascender social e profissionalmente.

Há estudos que mostram que há mais pessoas ambiciosas vindas da classe média. Isso faz sentido para você?

Não conheço tais estudos, mas tendo a acreditar nessa conclusão. As pessoas que vem da classe média tem uma visão muito clara da riqueza e da pobreza. Sendo assim, elas têm noção do que representa subir e o que significa cair um nível na escala social.

A ambição muda de geração para geração?Não acredito que a ambição das pessoas tenha mudado ao longo das últimas décadas. A idéia de ambição que temos hoje foi consolidada após a Revolução Francesa, de 1789. Crescer significa acumular riqueza. Nossas sociedades, salvo algumas exceções, são capitalistas, empreendedoras e essencialmente burguesas. Os heróis são profissionais bem-sucedidos.


Fonte: Voces/a

11 de junho de 2008

Documentário Arquitetura da Felicidade - Alain de Botton

Neste documentário que vida simples traz para você, Alain de Botton defende que devemos morar em casas que reflitam nossos valores e a época em que vivemos. O autor faz um tour pela filosofia e psicologia da arquitetura, com exemplos que vão da Holanda ao Japão. E sugere uma forma de morar que leva em conta valores como flexibilidade, novas tecnologias, contato com a natureza e convivência comunitária. Afinal, o mundo contemporâneo é um lugar para sentir-se em casa.