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2 de novembro de 2008

Futuro sacerdote deve ter maturidade psicológica e equilíbrio afetivo

A Sagrada Congregação para a Educação Católica divulgou hoje o documento «Orientações para o uso das competências da psicologia na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio», apresentado numa coletiva de imprensa pelo prefeito, Cardeal Zenon Grocholewsky, e pelo secretário, Dom Jean-Louis Brugues.

O texto ressalta a importância de que os bispos e formadores possam orientar os aspirantes em uma sólida maturidade psicológica e afetiva, assim como em uma rica vida espiritual, que lhes permitam enfrentar as exigências próprias da vocação ao sacerdócio, especialmente no que referente ao tema do celibato.

O documento assegura que quem sente a vocação cristã ao sacerdócio, além de estar chamado a viver as virtudes morais e teologais, deve ter um «sólido equilíbrio humano e psíquico, particularmente no campo afetivo, de forma que permita ao sujeito estar predisposto de maneira adequada a uma doação verdadeiramente livre na relação com os fiéis, segundo a vida celibatária».

Assinala também as qualidades que devem caracterizar todo sacerdote: «o sentido positivo e estável da própria identidade viril e a capacidade de relacionar-se de forma madura com outras pessoas ou grupos de pessoas; um sólido senso de pertença, fundamento da futura comunhão com o presbitério e de uma responsável colaboração com o ministério do bispo».

Segundo o documento, o candidato poderá ter uma correta compreensão do significado de sua vocação se esta for cultivada em um «clima de fé, oração, meditação da Palavra de Deus, estudo da teologia e vida comunitária».
Também adverte que quem aspira a entrar no seminário reflete em maior ou menor medida os males da sociedade atual como o materialismo, a instabilidade familiar, o relativismo moral, uma visão errada da sexualidade e uma influência negativa por parte dos meios de comunicação.

O papel dos formadores
O documento afirma que a pessoa que se encarrega da formação de seminaristas deve ser «um bom conhecedor da pessoa humana, de seus ritmos de crescimento, de suas potencialidades e fraquezas e de seu modo de viver a relação com Deus».
Assegura que é necessário que se conheça prudentemente a história do candidato; este não deve ser o único critério decisivo, mas é necessário que o formador veja «a pessoa em sua globalidade e em seu progresso de desenvolvimento», para assim evitar que se cometam erros no discernimento, freqüentes na preparação dos candidatos para a vida sacerdotal.

Indica também que é dever dos formadores conhecer com precisão «a personalidade, as potencialidades, as disposições e a diversidade dos prováveis tipos de feridas, avaliando sua natureza e intensidade». E adverte as tendências de alguns dos candidatos a «minimizar ou negar as próprias fraquezas, temendo a possibilidade de não serem entendidos e, por este motivo, não serem aceitos».

Ajuda da psicologia
A publicação assegura que, nos casos excepcionais que apresentem particulares dificuldades, o recurso ao psicólogo pode «ajudar o candidato na superação daquelas feridas, visando sempre a uma cada vez mais estável e profunda interiorização do estilo de vida de Jesus, Bom Pastor, Cabeça e Esposo da Igreja».

Para isso, recomenda a realização de testes ou entrevistas com o «prévio, explícito, informado e livre consentimento do candidato» e, por sua vez, pede evitar «o uso de técnicas psicológicas e psicoterapêuticas especializadas por parte dos formadores».
Os psicólogos que realizem este tipo de trabalho devem ter uma «sólida maturidade humana e espiritual» assim como uma «concepção cristã sobre a pessoa humana, a sexualidade, a vocação sacerdotal e o celibato».

O documento deixa claro que o candidato deve fazer uma livre escolha sobre o psicólogo que for de seu agrado. E declara que «a direção espiritual não pode ser de forma alguma substituída por formas de análise ou de ajuda psicológica» e que a vida espiritual «por si mesma favorece um crescimento nas virtudes humanas, se não existem bloqueios de natureza psicológica».
Fonte: Zenit

27 de agosto de 2008

Sócrates no divã do Dr. Freud - Paulo Ghiraldelli Jr

A conversa sobre se um filósofo é bobo ou não pouco ajuda qualquer um que queira filosofar corretamente. Todavia, a conversa sobre se um filósofo consagrado ou grande pensador é tolo em um ponto específico, é diferente. Se um bom pensador escorregou, e outro pegou seu escorregão, isso é próprio do debate filosófico.

O professor de filosofia Paulo Roberto Araújo tem a mania de dizer que “Freud é um bobo”. Vamos deixar a afirmação genérica de lado. Tomemos isso como algo específico. Vamos modificar um pouco a frase do Araújo, e fazê-la ganhar um sentido exclusivamente determinado, mas sem perder de vista a objeção que Araújo queria fazer a Freud.

Vamos imaginar que Freud não tivesse só utilizado dos escritos da literatura grega clássica para dar nomes para eventos psicológicos, patologias e, enfim, uma série de coisas com as quais ele quis dar uma descrição de nossa vida mental; vamos supor que Freud tivesse feito mais, que ele tivesse feito algo que Araújo disse que ele não poderia fazer. Vamos supor que ele tivesse desejado – e levado adiante isso – interpretar a vida mental dos gregos antigos com sua teoria. Ele poderia agir assim?

Segundo o que Araújo pensa isso seria um erro – uma tolice. Os gregos não teriam conhecido a subjetividade como ela se estabelece na modernidade. Freud estaria restrito pela vida da psique como ela é dada pela família moderna e, dizem alguns, burguesa. Mas eis aí o campo em que as confusões podem ser instaladas.

Botamos aqui nossa colher, como ela já apareceu no bolo maior de um de nós em O corpo (Ática, 2007), para que possamos saborear a festa da melhor maneira.

A subjetividade é um termo complexo, que comporta vários aspectos. Na verdade, é um conceito. De modo brevíssimo, vamos expor algo sobre ela.

Podemos falar de subjetividade enquanto instância filosófica que é o Cogito cartesiano, que é usado como “ponto arquimediano” para a certeza e, portanto, para dar a primeira verdade e depois a cadeia dedutiva de verdades. Assim, há o fundamento da ciência. Eis aí o trabalho tipicamente filosófico, metafísico – e é levando em conta este aspecto que Heidegger criou a expressão “metafísica da subjetividade”. Poucos usam o termo “subjetividade” neste sentido – só nós filósofos fazemos isso.

Podemos falar de subjetividade sob uma terminologia romântica, rousseauísta, algo que já vinha se estabelecendo desde Santo Agostinho. Esse tipo de concepção trata a subjetividade antes como “instância interna”, um “eu interior”, um tipo de self. Esta noção pode bem ser utilizada – como foi de fato – pelo liberalismo moderno para compor conceitos como o de “autonomia individual” e de “indivíduo”, “individualidade” etc. São termos que ganharam a mesa do sociólogo antes que do filósofo.

Mas podemos falar da subjetividade como a instância puramente psicológica, como um self que é responsável pela vida psíquica humana, as vivências somáticas e psicológicas individuais. É claro que uma noção como esta se desenvolveu também na modernidade de um modo espetacular. Sem ela ainda estaríamos escrevendo tragédias gregas e epopéias, e não romances. Mas não podemos proibir um psicólogo de usar de seu entendimento de psique para descrever pessoas da antiguidade. E isso por uma razão simples: a complexidade psíquica dos antigos é tão ou mais sofisticada que a nossa. O fato deles não a mostrarem em determinado tipo de literatura denota a não hegemonia social, prática e literária da noção que temos de individualidade – que aparece em nosso gênero literário, o romance –, mas isso não mostra, é claro, que a eles falte a subjetividade.

Figuras como Alcebíades ou Sócrates ou Platão são tão complexas quanto Epicuro ou Diógenes. E todos eles são tão ou mais complexos que Dom Quixote ou outros heróis que denominamos tipicamente modernos. Podem ser mais “rasos” – no sentido que Ulisses foi raso - mas não pouco complexos e desprovidos de problemas que chamam a nossa atenção por uma semelhança incrível com os nossos próprios problemas psicológicos.

Aliás, qualquer interlocutor de Sócrates, como Platão mostra bem, tem uma riqueza psicológica que denota uma subjetividade rica, ou seja, uma vida psicológica individual que permite ao psicólogo uma análise deliciosa.

Não é proibido, portanto, para um terapeuta psicanalítico (culto) da atualidade, de colocar um grego no divã. Ao contrário, o psicólogo que vier a fazer isso vai levar um susto ao perceber que tudo que se falou das diferenças entre eles e nós é menor do que esperávamos.

Caso Sócrates fosse colocado no divã, ele talvez viesse a achar um absurdo priorizar perguntas antes sobre seu pai do que sobre Atenas. Talvez ele viesse a achar também pouco útil perguntas sobre sua mãe e não sobre Péricles. Talvez ele se achasse antes um filho de Atenas que um filho de um escultor e de uma parteira, se é que isso é verdade. Todavia, vamos pegar a figura platônica de Sócrates, que não era o Sócrates histórico de Vlastos, mas que era tão grego quanto o Sócrates histórico. Vamos pegar o Sócrates do Menon, que faz a referência dele exercer uma atividade que guardaria semelhança com a da mãe, e não com a do pai. Qual a razão de não podermos falar que, neste caso, há uma nuance edipiana aí? Claro que podemos falar isso. Claro que Sócrates tinha uma subjetividade, enquanto psique, rica o suficiente para ter todos os problemas que qualquer um de nós, quando colocado no divã, anuncia e denuncia, e que podem bem ser descritos por uma literatura do tipo da inventada por Freud, a da psicanálise.

E se colocamos Sócrates para falar de seus sonhos. Como qualquer um de nós, Sócrates dava crédito aos sonhos como premonições. Ainda entre os mais cultos de nós há quem adore tomar sonhos como premonições. E, em parte, isso não é algo místico. Pois para bom intérprete, os sonhos ajudam a ver o que podemos estar querendo fazer, é claro. Sócrates poderia achar que ao relacionar seus sonhos com alguns de seus familiares, e não com os recados do daimonion ou dos deuses, estaríamos perdendo o foco do que seria útil observar nos sonhos. Mas eu daria menos de uma hora para Freud ou qualquer outro com uma inteligência semelhante convencer Sócrates de que aquele modo de falar dos sonhos tinha lá sua razão de ser.

Muitos historiadores têm feito isso: psicanálise de figuras históricas. A filosofia poderia aprender bastante, inclusive, se deixasse de lado o medo que tem de lidar com as questões psicológicas dos filósofos. É claro que só os cultos podem fazer bem isso. Não se pode imaginar que alguém chega a entender da filosofia de um filósofo por meio do estratagema de colocar tal pessoa no divã moderno. Mas nós todos sabemos que William James não estava errado quando disse que a filosofia de um filósofo é um modo de expressão de seu temperamento.

Caso Hegel tivesse podido ler Freud ele seria o primeiro a tentar voltar à sua passagem sobre Sócrates, na sua História da Filosofia, para reinterpretar o daimonion de Sócrates em termos de uma subjetividade com traços mais psicológicos do que aqueles a que ele aludiu.

Sempre quando tratamos de subjetividade, é necessário distinguir o que estamos entendendo pelo termo. Principalmente, temos de diferenciar as noções de “sujeito”, “indivíduo”, “pessoa” e “cidadão”. Ao diferenciar essas noções do conceito de subjetividade enquanto instância metafísica damos um passo real, necessário, para o verdadeiro entendimento da modernidade. Só a instância metafísica da subjetividade é de exclusividade da filosofia. As outras noções são trabalhadas pela filosofia, sim, mas a filosofia já ganhou sócios poderosos no tratamento delas – as ciências.

Fonte: Paulo Ghiraldelli Jr.