9 de junho de 2008

A idéia de que a alma aguarda sozinha na ressurreição entra em contradição com a "Eternidade"

Karl Rahner já tinha exigido a maior prudência ao se falar do intervalo entre o Juízo particular e o Juízo Final. Escreve ele: "É certo que este intervalo não pode ser compreendido como uma continuação do tempo, como nós o conhecemos"
O grande teólogo do Concílio chama a atenção, aqui, para uma outra problemática não resolvida dentro do esquema do modelo tradicional da morte, mo qual se diz que a alma "espera", na Eternidade, o final dos tempos.
Incentivada pelas novas pesquisas da física e da cosmologia sobre a natureza do tempo, surgiu, neste contexto, a pergunta bastante lógica:
Será que, na eternidade, ainda existe o tempo?
O salmo 90,4 declara que mil anos, para Deus, "são como o dia de ontem, que ja passou".
Para Deus, o tempo não existe.
Já no judaísmo tardio há reflexões "sobre a absoluta diversidade desta eternidade com relação ao tempo". No Novo Testamento, eteernidade "é concebida como termo oposto ao tempo do mundo. Na teologia, ela está sendo ligada com a qualidade de "simultaneidade total".
Sendo assim, não podemos falar da eternidade como um passar de tempo. Menos ainda quando tomamos em consideração as modernas reflexões sobre o tempo que têm sido feitas dentro da física atual.
Na dimensão que, teologicamente, chamamos "eternidade" não existe tempo no sentido como nós o conhecemos. Mas, quando não há mais tempo, não se podem passar anos e séculos, no decorrer dos quais a alma possa aguardar a futura chegada do Juízo Final, para de novo se reunir com o corpo.
Onde não há tempo não pode haver passagem do tempo, rumo ao futuro. Consequentemente, também não é possível que uma alma, sozinha, augarde na eternidade a ressurreição do corpo. Sem tempo, não há nada que se posso aguardar num futuro qualquer, pelo simples fato de não existir mais um futuro temporal.
Mas é exatamente isso que o modelo tradicional pressupõe. A contradição lógica inerente a esse modelo vem sendo hoje, porém, cada vez mais criticada.
Caso queiramos manter a verdade, tão declarada nos textos bíblicos, de que não existe tempo na eternidade, então devemos mudar a nossa concepção temporal sobre aquilo que acontece "depois" da morte.
Como a ressurreição do corpo, depois da morte, não pode acontecer num futuro temporal, porque, na eternidade, tal futuro temporal não existe, a única solução é voltarmos à idéia profundamente bíblica da eternidade como "simultaneidade total".
Eternidade significa um "agora simultâneo. E neste "agora" de Deus, não há nada que se deva "esperar" no futuro. tudo é agora. Isso siginifica que, no momento em que ser humano entra na dimensão da eternidade, ele entra numa dimensão de simultaneidade, na qual tudo aquilo que nós só podemos imaginar em termos de sucessão no tempo acontece num mesmo momento simultâneo e atemporal.
Com base nestes pressupostos, formulou-se, a partir dos anos 70 do século XX, nova concepção daquilo que acontece à pessoa humana na morte. Ela acentua, com argumentos lógicos, a necessidade de superar o modelo temporal e de substituí-lo por novo modelo temporal e de substituí-lo por novo modelo antropológico.

Fonte: BLANK, R J. Escatologia da pessoa. São Paulo: Paulus, 2000.

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